How I met your mother e o amor moderno

Com todo o drama causado pela Netflix, ao anunciar a retirada de How I met your mother de sua grade de programação, tornou-se quase uma obrigação escrever sobre a série. Sim, é fato que aparentemente tudo que se deveria já foi dito, uma vez que se criou uma contínua febre sobre ela há alguns anos, com várias páginas e grupos no Facebook dedicadas à sitcom. Contudo, o impacto nos fãs é tamanho, que o assunto parece não se esgotar.

A questão é que toda essa comoção não se daria sem motivo. O que se vê é uma legião de espectadores maratonando desesperadamente a série, antes que ela seja retirada do ar, simplesmente porque é um programa que passou a fazer parte da vida de muita gente. Muita gente.

how I met your mother 3Gente que se identifica com um ou outro personagem. Gente que se identifica com um pouco de cada um deles. Gente que caminha pela vida procurando sua trompa azul francesa ou seu guarda-chuva amarelo. Gente, apenas. E atribuo isso a um aspecto somente: How I met your mother não é mais uma sitcom americana. É a mais humana de todas elas.

Embora haja certos exageros próprios desse gênero, a série traz uma dose de realidade incomparável ao apresentar a busca de Ted Mosby não somente pela the one, por aquela que iria fazê-lo feliz e tudo mais, mas também por um sentido na vida – por algo que o fizesse saber quem ele realmente é e o tirasse daquela solidão que todas as almas sensíveis trazem dentro de si.

Ted é um romântico. Não há palavra melhor para descrevê-lo. Não o romântico sofredor do século XIX, mas sua transposição para o século XXI – aquele que vive em uma metrópole, cercado diariamente por milhões de pessoas, mas, como diria Drummond, com poucos, raros amigos. Raros amigos que fazem a sua existência valer a pena. Afinal, “no matter what you do in life, it’s not legendary unless your friends are there to see it”. E, sim, sua existência foi legendária.

HIMYM it's not legendary.gif

Legendária porque seus amigos sempre estiveram lá, entre idas e vindas, aventuras e desventuras. Ted amou e (quase sempre) acreditou em seus amores. E mesmo sua ausência o fazia acreditar. Com toda a fluidez dos relacionamentos modernos, diversas mulheres passaram pela vida de Ted – e ele acreditou que seriam para sempre. Mas nada é, não é verdade? As decepções são tantas que por vezes nos deixamos de lado, tendo o próprio personagem dito, em determinado momento, já ter gastado o número limite de faróis que lhe eram destinados.

HIMYM 1A questão é que todos nós nos apaixonamos por diversas vezes e queremos, desejamos com todas as nossas forças que seja pra sempre. Encontramos nossas trompas azuis francesas e esperamos nunca mais ter de devolvê-las para o lugar de onde tiramos. Gostaria de dizer que existe uma força universal que nos leva àquela pessoa que cita Star Wars numa conversa ou que topa ir numa feira renascentista com a gente. Mas não há. É tudo obra do acaso, mesmo que nós tentemos acreditar que houve uma comunhão de fatores que culminaram em nosso agora.

O que resta é não esperar. Não esperar que o acaso nos dê uma porrada na cara no momento em que decidimos ir embora e nos traga nosso guarda-chuva amarelo.

Viver a fluidez da modernidade pode nos trazer experiências fantásticas. Daquelas que contaremos depois de anos. Ted é um contador de histórias. E posso dizer que é maravilhoso contar as histórias de que somos feitos, mesmo que não saibamos o final.

No final, pode haver um guarda-chuva amarelo. Aquela pessoa que cante “La vie en rose” e faça o coração parar. Que faça o tempo parar. Aquela pessoa que nos faça desejar 45 dias a mais pra viver. Ou talvez o que haja seja apenas o caminho que nos levou até lá.

No fundo, HIMYM é sobre isso. Sobre o caminho de um cara por entre os relacionamentos modernos. Um caminho repleto de fluidez e incertezas. Entretanto, um caminho em que, mesmo havendo incertezas, há esperança – mas só pra quem sabe sentir como o Ted sentiu. E isso não se ensina.

Viver a fluidez da modernidade é só seguir mais um caminho. Em algum lugar dele pode estar nosso Lebenslangerschicksalsschatz. O tesouro do destino para toda a vida. Estaremos prontos pra encontrar o Ted Mosby dentro de nós? Ou preferimos o cinismo de uma vida sem paixões e medos?

Eu não sei, e esse texto não é sobre isso. Esse texto não é sobre certezas. Esse texto é só pra dizer que, assim como Ted, nós temos que contar nossas próprias histórias. Histórias sobre nossos diversos amores eternos. Histórias sobre buscas insanas por aquilo que nos dê sentido. É isso que nos torna imortais.

 

 

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