Escrever é se dar conta de que esse é seu único caminho

Carrego comigo, há algum tempo, uma frase de Drummond na qual, ao dar dicas a jovens escritores, ele diz: só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo; e sempre se pode deixar. Pois é. Eu nunca escrevi tanto quanto tenho escrito nos últimos meses. E nunca quis tanto quanto tenho querido nestes mesmos meses não ter razões para escrever. São histórias das quais não tenho o mínimo orgulho de ter sido o autor.

Porque a vaidade, o orgulho de se ter escrito um texto foda, se torna totalmente supérflua à medida que você se dá conta de que a sensibilidade que te faz conseguir escrever é a mesma que te faz encarar o mundo com os olhos mais pessimistas e cínicos possíveis, somados a um coração desesperadamente carente de afetos utópicos, afetos esses que só você julga poder receber.

Escrever é expor pra humanidade parte do pior de você. Expor e concretizar justamente aquilo que você não gostaria de ter sido naqueles momentos. É afirmar pra si e pro mundo o quanto ser quem você é tem te matado aos poucos, e o quanto ser quem você é machuca pessoas ao redor. Vejo muita gente insensata se autointitular poeta, como se houvesse alguma vantagem em sofrer mais que a maioria dos seres humanos.

Peter Parker, o clássico Homem-Aranha, diversas vezes amaldiçoa o dia em que foi picado pela tal aranha radioativa. Em diversas histórias ele chama seu poder de maldição e afirma que daria tudo pra que o dia em que o acidente aconteceu fosse apagado de sua história. O engraçado é que a maioria de nós, que crescemos lendo essas histórias, daria tudo para que isso acontecesse com a gente, daria tudo para ser o Homem-Aranha, para poder salvar o mundo, para poder finalmente fazer nossa vida valer a pena e fazer com que nossa existência seja justificada.

Assim é com o escritor. Todos gostariam de sê-lo, mas não fazem ideia do peso que é carregar nas costas sentimentos que tantas pessoas ao redor simplesmente não conseguem sentir. Acumular toda essa dor pra si e depois vomitá-la em forma de palavras para que essas palavras se tornem um espelho para essas mesmas pessoas.

Eu queria não precisar escrever, mas eu preciso. E, ironicamente, escrever é única coisa que me faz sentir vivo. É o que faz com que o sangue em minhas veias corra com um propósito. E sei que, por mais que eu lute contra, ser quem sou é a única coisa que eu poderia ser. Por isso eu escrevo. E por isso eu não vou parar.

 

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