Relacionamentos líquidos e qual é sua parcela de culpa nisso

Poucas coisas têm gerado tanto incômodo no consciente coletivo quanto a maneira como temos nos relacionado. A impressão que tem-se é que estamos cada dia mais sozinhos e, a cada dia, supostamente mais confortáveis com isso. Nada mais pode ter tanta importância, tanta relevância: amizade, amores, família, são tudo coisas passageiras. Virou pecado nos agarrarmos a qualquer coisa que não seja um “bom” emprego e, consequentemente, uma “boa” posição social.

Virou pecado sentir. Você não pode perder seu tempo com isso. Afinal de contas a vida passa, não é mesmo? O tempo não volta, as oportunidades param de vir com o tempo e você fica pra trás. O mundo é grande, cheio de gente interessante. Não há por que sofrer por aquela pessoa pra quem você tanto se doou e que em algum momento decidiu partir. E, aliás, o problema é justamente esse: se doar demais. As pessoas não merecem nada de nós senão desprezo, e o que vier além disso é fruto de nossa misericórdia, pensamos.

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Chegamos a um nível de cinismo tão grande que não nos importamos bulhufas com o fato de que nos negamos pra nós mesmos a cada mísero segundo. Tratamos nossos sentimentos como se fossem um pedaço de papel que simplesmente deve ser descartado quando nos é inútil. Tratamo-los como se fossem doença, uma parte de nós que devesse ser arrancada. Um erro do Universo ao nos criar. Odiamos sentir porque na maioria esmagadora das vezes nossos sentimentos atrapalham a outras áreas de nossa vida que julgamos serem mais importantes. E, assim, vamos deixando tudo pra depois.

Não nos damos tempo para nos recuperar de um romance que não aconteceu como o esperado. Ou da traição de um amigo. Ou dos problemas com nossos pais. Fomos ensinados a fugir e nos isolarmos, de tudo e de todos. Nossa geração aprendeu a ser covarde e sentir orgulho disso. Aprendeu a se ofender, mas não a virar a porrada de volta. Aprendeu a ser má ganhadora e péssima perdedora. Aprendeu que seu inimigo é o vizinho, o outro, o próximo; todos aqueles a quem pudermos atribuir a culpa por sermos quem somos.

E assim vamos acumulando todo tipo de ferida. Gastamos uma fortuna em terapia, enfiamos a cara em qualquer religião que condiga com nosso jeito de pensar, saímos com pessoas quaisquer que satisfaçam nossos desejos mais primitivos. Nos tornamos colecionadores de fracassos sem saber exatamente onde começamos a errar.

Alcançamos os objetivos que nos disseram pra alcançar e continuamos vazios, como se tivéssemos um buraco negro dentro de nós que suga tudo o que vai restando até que não reste mais nada exceto esperar a vida acabar. E tudo isso porque nos negamos a dar vazão ao que existia de mais puro dentro de nós lá atrás. Porque nos negamos a encarar a nós mesmos no espelho e perguntar “quem é você e o que está fazendo consigo?”

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“Esta é a sua vida e ela está acabando um minuto por vez.”

Afinal, se é que existe algum sentido nessa vida, só descobrirá quem não se escondeu atrás de um discurso ou de uma desculpa qualquer.

Que comecemos a nos permitir.

2 comentários em “Relacionamentos líquidos e qual é sua parcela de culpa nisso

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  1. Ao fim do seu texto me veio uma música à mente: “abandone o orgulho, vamos nos permitir!”rs
    Eu gosto de acreditar que, em mesma proporção, existem pessoas que primam pela honestidade consigo e que se escondem de forma covarde e buscam pelos prazeres efêmeros. Mas a real é que todo mundo está em busca da felicidade, mas esse mundo competitivo ao qual você fez alusão, deixa as pessoas sem saberem como se comportar e de repente, é muito mais comodo mesmo apanhar e não bater de volta. É difícil pensar como Fernanda Takai: “as brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci”. É doloroso se dar ao tempo da dor, do sofrimen

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  2. Ao fim do seu texto me veio uma música à mente: “abandone o orgulho, vamos nos permitir!”rs
    Eu gosto de acreditar que, em mesma proporção, existem pessoas que primam pela honestidade consigo e que se escondem de forma covarde e buscam pelos prazeres efêmeros. Mas a real é que todo mundo está em busca da felicidade, mas esse mundo competitivo ao qual você fez alusão, deixa as pessoas sem saberem como se comportar e de repente, é muito mais comodo mesmo apanhar e não bater de volta. É difícil pensar como Fernanda Takai: “as brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci”. É doloroso demais se dar ao tempo da perda, do sofrimento por algum relacionamento (seja qual for). Não aprendemos a lidar com nossos nós, porque às vezes se quer os identificamos, pela comodidade em que vivemos. E Clube da Luta é um bom filme para começarmos a enxergá-los!

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