O escuro de seu mundo

Então é isso. Não fomos nem um décimo do que poderíamos ter sido e o fim foi inevitável. Esse fim que parece o fim do mundo, mas que daqui a um tempo não parecerá nada. Me pergunto se daqui a algum tempo lembrarei seu nome. Aquilo que agora arde como lava pode se tornar rocha. Ou pode se tornar nada. Em anos. Décadas talvez. Ou uma lembrança triste no leito de morte.

Olho pra você e sinto o que não somos. Caralho, quanto vazio impenetrável pode haver entre duas pessoas? Tanto vazio que a gente só entende depois que o fim chega. O fim do que não houve. A gente procura explicações, motivos, qualquer coisa que possa nos mostrar por que deu tudo errado. A gente tenta entender o próprio conceito de erro pra saber se não foi tudo invenção. É impressionante como podemos nos enganar.

Que coisa estranha são as paixões. Que coisa mais estranha ainda é a vida. Num instante o outro se torna aquilo que há de mais importante pra nós. Levamos uma porrada na cara e começamos a analisar nossas falhas em tudo que julgávamos o melhor em nós. Eu fui o que julgava ser o que você amasse. Olhei pro escuro do seu mundo e quis encontrar meu lugar. Hoje sei que esse lugar nunca seria meu porque ele é só seu, e você faz dele o que quiser.

Penso nessa pequena fração de tempo que tivemos juntos e em como isso é mínimo perto de toda a vida. Apesar dessa pequenez, parecia haver um infinito dentro de mim, que se expandiria cada vez que eu te ouvisse respirar. Essa deve ser a natureza paradoxal do mundo. Deve ser isso que Camões pensou. “Tão contrário a si é o mesmo amor”. Quando ouvi isso, já há tantos anos, jamais imaginaria que esse seria o paradoxo a me atormentar e a rasgar minha pele. Somos histórias e palavras. Somos carne. Somos versos roubados.

parede-da-lava-solidified-17178844.jpgDe repente a vida se torna o que não gostaríamos. De repente eu só queria ter paz. Uma noite de sono tranquila, sabe? dormir horas e horas sem acordar pensando nesse nada e nesse tudo. Pensando num amor que tem que acabar, já que havia amor de um lado apenas, e eu não enxerguei e por isso não fugi a tempo. Ou posso ter enxergado e não querido entender porque eu precisava me agarrar a algo. Acordar pensando nisso fode com minha cabeça.

Agora penso se essa estranheza vai passar repentinamente também. Se um dia, sem aviso, seu nome será outro. Conjecturas inúteis essas. Porque agora é na porra do seu nome que eu penso, e eu me lembro dos seus olhos, e me lembro do seu perfume, e penso no seu jeito de andar, e ouço a sua voz mesmo sem ouvir, e restam tantas lembranças de um tempo que eu não tive. E o futuro se perde em um passado que eu inventei.

Sua noite recaiu sobre mim enquanto a noite recaía sobre nós, mas ela não te envolveu. Esse foi meu crime: estar só, achando que não estava; ou achar que estávamos no mesmo lugar, quando você sequer queria estar lá. Os minutos que julgava nossos diminuíam à medida que os dias se desgastavam.

Eu já esperei tanto. Eu queria nunca ter me apaixonado  por você. Mas agora vou pra casa. Morrissey e Ian Curtis me farão companhia. Porque a esperança se foi. O quarto está frio. Tomamos estradas diferentes. E nenhum adeus foi dito.

2 comentários em “O escuro de seu mundo

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  1. E eu me pergunto, ao me deparar com seu texto: como havemos de abandonar esse sentimento de culpa se sempre partimos do pressuposto de que fomos nós quem erramos? Isso é um fado pesadíssimo de se carregar! Não podemos culpar os desencontros, o desamor, o momento histórico de vivemos, a falta de insensibilidade das pessoas. Sempre somos nós, que sentimos demais! Mas não foi isso que nos ensinou? E tenho plena convicção de que não foi para sentirmos essa culpa, mas sim de que somos a experença na falta de humanidade.

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