Tudo bem se você se afogar…

Dentre as dezenas de vezes que tentei fazer algo a respeito do meu sobrepeso, a vez que fiz natação foi, de longe, a pior de todas. Você tá lá, fazendo seu exercício tranquilamente, e, de repente, você se afoga. Sem mais nem menos. O agito das águas pelos vários braços batendo te fazem afogar. E então você entra em pânico, começa a achar que vai afundar.

O engraçado é que a piscina das escolas de natação costuma ser rasa, afinal, muita gente que está ali de fato não sabe nadar. Portanto, você sabe que não vai afundar. Sabe que é só pôr os pés no chão que tudo está resolvido. Mas sua cabeça, obviamente, não consegue processar nada disso quando está em desespero. E então você afunda, ridiculamente. Afunda simplesmente porque não soube lidar com a falta de ar por alguns segundos.

A professora, mais tarde, te olha nos olhos com cara debochada e diz: nadadores profissionais se afogam também. E sabe qual é a diferença entre eles e você? Eles aprenderam, com o tempo, a manter a calma e deixar que o corpo seja conduzido pelas águas, e assim eles não afundam.

Seu peito dói o resto o dia, mas o pior de tudo é a sensação de impotência diante de uma situação tão ridícula: afogar em uma piscina rasa, de que crianças fazem sua banheira. Vá se foder, né?!

Mas, já parou pra pensar em quantas vezes na vida nos deixamos afundar nas situações mais simples? Em como nossa cabeça, em meio ao desespero, torna qualquer coisa que seja em caos? E, depois que tudo passa e ficamos mais calmos, percebemos o quanto fomos imbecis?

Por que será que é tão difícil pra nós aceitar que afogamentos fazem parte da vida? Por que desesperamos? Vemos muita gente afogando à nossa volta, mas nunca queremos que sejamos nós. Julgamos essas pessoas, as chamamos de fracas, medrosas. Nos afastamos delas, muitas vezes. Tentamos criar uma piscina em nós onde tudo esteja sob controle, onde cada braçada seja calculada, onde ninguém interfira.

Mas então o inevitável acontece: afundamos. Talvez, dessa vez, em nossa própria arrogância. E nos odiamos por isso. Nos odiamos mais do que odiamos as pessoas de quem nos afastamos. Percebemos que elas são, na verdade, um espelho. E, ainda que tenhamos tentado quebrá-lo várias vezes, ele permanece intacto. A verdade permanece intacta. A verdade de quem somos nós – voláteis.

Porque não há problema em afundar. Com o tempo a gente aprende. Aprende a lembrar que a piscina é rasa. Aprende a lembrar que nos afogaremos muitas e muitas vezes, ainda. Aprende a lembrar que não somos nós que conduzimos a água, mas ela nos conduz. Que todos estamos nessas mesmas águas. E que tudo acaba ficando bem, no final. Mesmo que não por muito tempo…

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