Não foi por mal

Para ler ouvindo Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas, da Fresno, canção que serviu de base e inspiração para este conto.

Chovia quando eles se conheceram. Desde então, houve sol, e tudo aconteceu do jeito mais incrível que pudesse acontecer entre duas pessoas. Incrível e intenso, ambos. E se a felicidade é o momento que se vive, sim, eles foram felizes. Eles não souberam medir o tempo, porque o tempo não importava pra eles. Foram milhões de segundos, todos belos. Todos perfeitos. Ou, ao menos, acreditavam ser perfeito. Porque mesmo a perfeição em que se crê pode ter fim. Em algum momento, ela acreditou mais no fim do que no momento. E ele não soube. Ele nunca soube até que o fim se tornou concreto. Foi como se o ar se tornasse denso, ganhasse forma e fosse jogado em direção a ele. Chovia novamente, num fim de tarde. Ela sabia o que estava fazendo, embora não quisesse exatamente aquilo. Confronto. Apenas:

− Eu não fiz por mal. Não quis te magoar.

Entender o que estava acontecendo ali foi o mais difícil. Nenhum dos dois sabia, ela só sabia que tinha que acabar. Tinha que acabar porque o amor acaba, por mais que se acredite, em minutos aleatórios espalhados pela vida, que há coisas que podem não ter fim. Pra um dia vermos que isso é o engano mais tolo de todos.

Chuva gifEle olhou para dentro de si mesmo e procurou os retratos intocáveis que guardou, retratos em que havia todas as expressões que ela havia feito, com as quais ele se sentiu presenteado durante aqueles anos. Todas elas estavam lá. A trilha sonora era Joy Division. Como algo tão bom pode simplesmente não funcionar mais? Ian Curtis não sabia. Ele também não, afinal quem era ele pra saber? As lembranças doíam mais que o fim. A verdade é que não é um rompimento que acaba com as nossas noites, que tira nosso apetite literal e metaforicamente. O que causa tudo isso é o que de bom cada um vive. Aquilo que nos alimentava já não existe mais, e a gente morre por inanição. A morte não é imediata, como uma faca cravada entre nossas costelas e indo direto ao coração. Aquele coraçãozinho que crianças apaixonadas desenham pra simbolizar seu amor é o mesmo que nada. É esse estômago insaciável, jamais alimentado suficientemente, que nos mata.

Ouvindo cada uma das palavras que ela disse, engolindo-as por cima dos anos que não sabia quantos eram, ele continuou a ver os retratos guardados dentro de si. Eram tantos olhares − que ele acreditava ter visto todos – enchendo-o de felicidade pelo tempo imensurável, e de repente um monólito caía sobre seus pensamentos quando os olhos dela se fechavam.

− Eu não fiz por mal. Não quis te magoar.

Havia lágrimas nos olhos dela. Sempre lindos. Como aqueles olhos que já sorriram tantas vezes enquanto diziam que nunca mais ia chover podiam molhar o chão daquela forma? E como aqueles olhos guardavam tanta beleza dentro de si? Ele a amava, amava os olhos, amava o choro, entretanto não podia mais a abraçar e dizer que a tempestade ia passar, já que o amor nem sempre é suficiente e tempestades não passam quando a gente quer.

Sempre há uma situação ideal e a realidade nos mostra que ela jamais vai acontecer. Ele queria estar no controle, apesar de sempre ter se deixado levar. Naquele momento, fugir, sair dali, da casa em que estava, da vida em que estava, correr, apenas isso poderia talvez salvá-lo. Então ele explodiu. Explodiu em si mesmo, com todo o amor que havia em seu estômago. Chorava feito uma criança desesperada que nunca mais vai ver a mãe e descobre que o mundo é cheio de crueldade.

Abriu a porta da sala e saiu, cobrindo apenas os cabelos com seu capuz azul, como se esse gesto pudesse proteger as lembranças, sem se importar com a chuva que caía em seu rosto e se misturava com as lágrimas. A água escorria e o gosto do sal nem o incomodava. Em sua cabeça, estavam os retratos que seus olhos tiraram nos últimos anos e as palavras que ouvira havia poucos minutos. Isso tudo não concordava, e sim formava um paradoxo impossível de se resolver.

Ao invés de correr como planejara, em passos lentos pela rua ele tentava organizar seus sentimentos e sentidos. Tentava encontrar tanta coisa… Tanta coisa que foi arrancada dele e que agora pendia invisível das mãos que ainda moravam em sua casa. Sua casa? Não mais. Ele não era bem-vindo. Pra sempre. Pra sempre.

Novo paradoxo. Não há coisas que não tenham fim. Mas o fim é eterno.

Se existe culpa quando o amor acaba, só o amor é culpado. Contudo, sempre culpamos o outro. Ele jamais a perdoaria, mesmo não podendo ser dela uma culpa que só o amor detém. Ele não a perdoaria e implorava pelo seu perdão. Desejava seu perdão. Precisava do perdão por não poder nem saber perdoá-la. Sabia que ela estava machucada. Sabia que a nossa dor sempre é maior. Que há um limite quase físico para nos importarmos com o outro. Isso não é insensibilidade. Isso é um egoísmo inevitável que se cria dentro de nossa própria sensibilidade. Que aumenta nossa fome. Que ecoa.

Chuva 1

Tudo que havia agora era silêncio. A voz parara. As lembranças emudeceram. A chuva existia, mas ele a ignorava enquanto seu capuz azul não o podia mais proteger. Via o reflexo da lâmpada da rua na poça e tudo que queria era não sentir mais fome. Não sentir mais aquela ânsia pelos segundos que julgara felizes. Não querer mais se alimentar dos olhos que o engoliam e o faziam se sentir vivo. Não tremer de frio em meio à solidão.

Restava gritar. Gritar dentro de si. Gritar por saber que algo se quebrara como um vaso que cai e nunca poderá ser colado, já que a certeza é que nenhuma daquelas peças vai se encaixar como antes, gerando uma deformidade incômoda para a qual ninguém quer olhar. Mas cada caco representa uma parte do todo frágil e delicado que se forma quando duas pessoas passam a acreditar num pra sempre impossível. Ninguém quer a deformidade depois de conhecer a perfeição.

Restavam as fotografias que nunca foram físicas, guardadas na sua cabeça, parecendo perfeitas. Ele explodiu novamente e se deu conta de que as lembranças também eram dela. Que ela o veria naquele primeiro instante, naquele dia em que eles se conheceram e que chovia. Que ela o veria na chuva que caía em seu agora. Que ele era cada gota. Que cada lágrima seria sentida. Que ele estaria em cada poça. Que ela pisaria em cada poça e seus pés estariam irremediavelmente molhados.

Poça

Ele sempre foi uma hipérbole. Comparava agora suas lágrimas com a chuva e não entendia a si mesmo. Criou em si e por si uma certeza de que seu sofrimento era o maior do mundo. Ninguém negaria isso, pois julgamos nosso sofrimento o maior, óbvio, é o egoísmo inevitável. Ele a vira chorar e sua convicção era que todas as lágrimas que escorriam pela pele que antes o tinha amado não somariam um décimo do que ele sofria. Nunca se sentiu tão humano. Morreu mais um pouco. E pouco a pouco.

Chovia quando eles se conheceram. Depois houve sol. O que ele viu antes de abrir a porta e dar seus passos lentos pela rua, foi o sol desaparecer. Ele não veria mais aquele rosto. Não veria mais aqueles olhos. Não mais aquela vida. Num fim de tarde, o sol desapareceu. Veio a chuva e poças se acumulavam pela rua.

 

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