Ser o Capitão Fantástico implica, às vezes, não ser o Capitão Fantástico

(Quero começar este texto dizendo que ele não é uma resenha ou uma análise do filme Capitão Fantástico. Porém, ele será usado de base pro que quero argumentar aqui. Sim, haverá spoilers. Recomendo veementemente que assista a esse filme antes de ler o que escrevi a seguir. Mas, claro, você pode ler antes de assistir, se quiser.)

Capitão Fantástico, de 2016, escrito e dirigido por Matt Ross, trata de Ben Cash, um pai que acaba de ficar viúvo e precisa, a partir dali, criar seus seis filhos sozinho. O problema é que Ben e sua esposa, ao se darem conta do rumo que a educação americana convencional tomava, decidiram criar as crianças no meio de uma floresta em Washington, longe da civilização, ensinando-lhes filosofia, direito constitucional, literatura, música, diversos idiomas e autossobrevivência, sempre incitando seu lado crítico e analista. Tudo para que eles não se deixassem alienar pelo sistema.

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Criar seus filhos de maneira libertária parece ser o sonho de muito cara que ainda não é pai. “Não vou criar filho para obedecer a leis sem sentido e ser mais um escravo da selvageria do capitalismo.” Era isso que Ben queria e até certo ponto deu certo. Seus filhos são brilhantes, tudo o que você gostaria que os seus se tornassem. Mas, qual o problema, então? O problema é que, quando você ensina crianças a não serem submissas, uma hora isso se vira contra você. Uma hora você será o falastrão ditando ordens sem sentido que precisa ser parado. É o ciclo natural das coisas.

Quando a esposa de Ben comete suicídio no meio de um tratamento contra a depressão, o primeiro embate acontece: seus filhos querem ir para a cidade grande ver o velório e enterro da mãe, mas ele proíbe. Tendo-os criado por tanto tempo socializando apenas entre si e longe dos prazeres ilusórios do capitalismo, ele tem medo de que as crianças não saibam lidar com o mundo como ele é: um grande esgoto a céu aberto, fedendo a hipocrisia. Mas sua proibição não significa nada e elas decidem que, sim, vão visitar a mãe, usando argumentos do próprio pai. E é aí que começa o filme, quando as estruturas antes tão fortes começam a se abalar.

Ben precisa lidar com o fato de que, a partir dali, seus filhos poderiam não mais vê-lo como o herói que sempre foi. E que foi pra isso mesmo que ele os criou: para que fizessem aquilo que julgassem necessário em determinado momento, não importando se pro resto do mundo isso soasse estranho. Decisões precisam ser tomadas e na maioria das vezes isso não é tão simples quanto parece. Principalmente numa geração como a nossa que definitivamente não foi ensinada a tomar decisões. Vivemos confusos, com medo, ansiosos, desesperados. Não sabemos mais lidar com nossa existência. Os filhos de Ben eram um ponto fora da curva, e ele precisava preservar isso, mesmo que lhe custasse não ser mais o “capitão”.

Ben nos ensina a confrontar nosso próprio conhecimento, nossas próprias convicções, a confrontar tudo aquilo que nos faz quem somos, aquilo que julgamos o melhor a ser feito. Porque se, como já dissemos aqui várias vezes, nós somos o que fazemos, só fazemos o que fazemos porque cremos que devemos. E quando nossas crenças são confrontadas, nos perdemos de quem somos, a construção precisa começar do zero de novo. Ninguém nunca quer que isso aconteça. Estamos sempre cansados demais, embora nunca saibamos do quê. Achamos que estamos contentes com a vida que levamos, mas a verdade é que sempre queremos mais. E isso é fruto de sermos sempre as mesmas pessoas o tempo todo. Queremos mudar, mas ao mesmo tempo sabemos exatamente tudo de que precisamos abrir mão.

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“Somos definidos por nossas ações, não por nossas palavras.”

Mudança custa caro. Para Ben, custou correr o risco de ver seus filhos começarem a fazer tudo aquilo que ele ensinou que era errado. Correr o risco de perder a admiração deles, que era seu combustível. De toda a educação e criação que lhes deu irem por água abaixo. Mas era necessário que isso acontecesse. Era necessário que as estruturas fossem abaladas para que se notasse que, na verdade, elas não estavam tão fortes assim, e nunca estarão.

Ter sempre certeza de tudo uma hora nos faz perder o chão. Mas nada é tão trágico que não possamos reparar – ou refazer. E sim, a vida é essa constante mudança de convicções. E não há nada que possamos fazer pra mudar isso, exceto mudarmos a nós.

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