The Get Up Kids – Como manter a eterna juventude (e sem vergonha de ser emo)

Não. Os caras do The Get Up Kids já não têm mais nada de “kids”. O Hateen também não. Nem nós. Mas a verdade é que nada disso importava. Não naquele momento. Depois de vinte anos esperando por uma banda que influenciou toda uma geração do hardcore brasileiro, a idade era o que menos importava, negando totalmente a frase “but it’s too late to turn your age around”, de The one you want. Estávamos todos esperando para ver uma parte da história ser contada ali, na nossa frente – e, independente de tudo, era um momento de celebração.

IMG_20170902_180319765Quando os caras do Horace Green subiram ao palco, parecia que até o clima do lugar havia mudado. Com um show enérgico, a banda mostrou a que veio, cumprindo muito bem a sua função de preparar a galera pro que viria depois. Fiquei imaginando como deve ser foda estar no palco, fazendo um show que pode ser o mais importante da sua vida. Não porque fosse um público gigantesco ou porque aquilo pudesse catapultar sua carreira, nada disso. Mas por estar abrindo pra uma banda que encarna o que de melhor foi feito em um estilo de música que envolve um amor gigantesco por parte de quem está inserido nessa movimentação – alguns já há tanto tempo.

IMG_20170902_184932841Isso torna a participação do Hateen no rolê ainda mais fundamental. Eles são pilares da cena hardcore/emo no Brasil, estiveram naquele momento de transição, quando as bandas começaram a abandonar as letras em inglês, lançaram um dos símbolos da explosão do emo nos anos 2000 – 1997 – e estão aí com um disco foda (mais uma comprovação de como a cena real emo anda forte por aqui). Com tanto pra contar e com sua importância inquestionável dentro do movimento, a banda fez uma homenagem à história que eles ajudaram a criar e da qual faziam parte ali, naquela hora: montaram um set apenas com músicas em inglês, retomando seus primórdios e homenageando uma cena que está aí já há tanto tempo, que conseguiu sobreviver aos produtores que tentaram mudar tudo e que permanece viva, de volta ao underground, às banquinhas vendendo camisetas e CDs, e acompanhada de perto pelos fãs que nunca deixaram essa coisa linda que é o hardcore morrer. E nunca vão deixar. As vozes todas cantando junto com o Koala comprovam isso.

Por fim, The Get Up Kids. Quando eles estavam prestes a entrar no palco, fui percebendo o desespero do público para que o show começasse logo. Era uma espera de vinte anos cujo fim se fazia urgente. Não dava mais pra esperar um segundo que fosse pra ver a banda que marcou a vida de muita gente ali – gente que descobriu o som dos caras quando ainda poucos no Brasil estavam preparados pras mudanças no meio hardcore e pro que viria a ser o emo. Holiday já levanta o público logo de cara, causando todas as reações possíveis. Enquanto a maioria pulava e cantava junto, outros pareciam não acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Tinha gente chorando já naquele começo, talvez esquecendo que ainda ia ouvir aquelas músicas em que só o coração mais duro do mundo pode permanecer impassível.

I’m a loner dottie, a rebel era uma das músicas que eu mais queria ouvir e os caras mandaram também logo no início. Sinceramente, não sabia mais o que esperar, porque estávamos diante de uma banda com um repertório entupido de clássicos e também de músicas que, apesar de não terem necessariamente se tornado clássicas, são guardadas com um carinho todo especial dentro de nós. Aposto que quase todas as pessoas lá tinham uma música assim. A minha era Wish you were here, que infelizmente não rolou. Essa talvez tenha sido a música deles que mais tenha me tocado, em determinado momento da vida. E nossa relação com música é absolutamente pessoal, não adianta.

img_20170902_202026472_hdr.jpgMas rolou Mass pike, Forgive and forget, Campfire Kansas… Mesmo faltando aquela música do coração, a sensação na hora era de que estávamos plenos. E ainda viria I’ll catch you… Impossível não chorar numa dessas, sério. Embora a própria banda não se refira a si mesma como emo, no fundo tudo é – estávamos todos juntos e a emoção de todas aquelas músicas era o que importava. Não tem idade.

Éramos todos jovens quando o The Get Up Kids surgiu. Agora ainda estamos aqui. Mais velhos, ainda jovens, principalmente porque essas canções moram em nós. E sempre estaremos prontos pra cantar.

 

Nota: Nós da Los Tres Caballeros estamos todos muito tristes com a notícia da morte do Matheus Pagalidis. Não existem palavras que confortem a família e os amigos nesse momento, mas fica aqui nossa lembrança, como uma homenagem a mais um de nós, que ajudou a cena a se perpetuar e que continua existindo dentro de cada um que esteve lá.

Um comentário em “The Get Up Kids – Como manter a eterna juventude (e sem vergonha de ser emo)

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: