“Eu nunca te obriguei a me ouvir falar”

 

Praticamente todas as frases dessa música poderiam ser o título deste texto. “Relato de Um Homem de Bom Coração”, pra mim, é uma das melhores músicas da Fresno. E, embora eu a entenda de uma forma diferente cada vez que eu escuto, um sentimento nunca muda: pau no cu de todo filho da puta que acha que sabe melhor de nós do que nós mesmos só porque nos emprestou os ouvidos um dia. É disso que o punk trata. Não espere que alguém se compadeça de graça. Não entregue sua cabeça a troco de um mínimo de ajuda de quem não entende o que você é.

Porque nem nós entendemos direito o que somos. E foda-se. Mas as pessoas querem nos colocar em suas caixas, nos vomitar seus elogios. Quantos tapas nas costas levamos de quem gostaria de, na verdade, nos socar a cara? “Esses abraços são pra me amaldiçoar”. Pra nos fazer acreditar que somos o que não somos. Que somos aquilo que elas veem em nós. O que gostariam que fôssemos.

A canção começa e termina com o eu lírico se desculpando por quebrar a promessa de que não iria mais falar de si mesmo em suas cartas. Porém, aqui ele precisava desabafar. Precisava ser sincero consigo mesmo. Justificar a si o porquê de ter se deixado vender por tanto tempo. Ele sabe que precisa partir, ir pra longe de todos aqueles que o compraram ou têm tentado comprar. Caminhar com as próprias pernas pra um lugar qualquer, sem roteiro, sem destino, sem hora pra voltar. Apenas seguir em frente.

“Eu tinha apenas dezesseis e já achava que eu sabia demais”. A primeira vez que eu escutei isso eu tinha quinze anos. E, sim, eu era um moleque metido à besta que achava que sabia tudo. Que achava que seus gostos e seu senso moral eram superiores aos das pessoas ao redor – fui assim por muito tempo, aliás. Mas então você cresce, se ilude, desilude, apanha pra caralho, e percebe o quão babaca estava sendo. A verdade é que a gente nunca sabe nada. E ainda que julguemos saber algo, mesmo depois de adultos, isso não vai nos livrar do que a vida tem pra nos ensinar. Nada, absolutamente nada pode nos preparar para o que há de vir.

Essa talvez seja a maior ironia de todas. Fomos adolescentes cheios de certezas e, agora, adultos cheios de dúvidas. E, mesmo cheios de dúvidas, não queremos que nos digam o que fazer. Não queremos seguir regras, fórmulas, modelos de felicidade. Queremos achar nosso lugar no mundo por nós mesmos, seguir nosso caminho, cair, levantar, sem que ninguém nos aponte o dedo na cara depois. Porque, ainda que falemos sobre a nossa dor, que escrevamos e cantemos sobre ela, ela é uma dor que definitivamente não pode ser dividida com ninguém.

E com isso, não estou dizendo que não precisamos de amigos. Muito pelo contrário. A estrada só faz sentido quando compartilhada. Porém, amigos de verdade saberão que há vezes em que precisamos andar sozinhos, e não se ofenderão com isso. Não cobrarão nada de nós, porque eles também têm seu rumo a trilhar, e também querem fazer isso por si sós.

Por isso, essa canção começa e termina pedindo desculpa. Desculpa porque a única coisa de que o eu lírico tem podido falar é de sua própria vida. Porque ainda tem muita história a ser contada. E, se você se recusa a ouvir sem ter que dar sua opinião depois, sinceramente, é melhor sair da sala.

Então, meus caros, jamais deixem alguém rir do sonho de vocês. Jamais deixem alguém falar o que vocês têm que fazer, o que vocês têm que pensar, o que vocês têm que vestir. Porque, meu, nós somos senhores de nós mesmos. Todos nós. – Lucas Silveira, no Planeta Atlântida 2011

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