O humano em Edgar Allan Poe

Nunca mais.

Quando o corvo diz essas palavras pela última vez, encerrando uma das peças mais importantes da história da literatura, a figura trágica de Edgar Allan Poe, confundida muitas vezes com as personas que criou, é jogada na eternidade.

A verdade sobre os escritores – e sobre os artistas em geral – é que todos buscam a eternidade. Tornar seu autor imortal é a função de toda obra, pois ela poderá romper com as leis que nos prendem àquilo que é físico, criando um eco cujo som reverberará mesmo quando já não formos mais do que pó, revelando nossa verdadeira humanidade.

É a arte que nos permitirá conhecer o humano em nós.

Edgar Allan Poe 2O problema (será um problema?) é que Poe enxergou o que de sombrio há nesse tal de humano. Transitando entre o simplesmente grotesco e o sobrenatural, seu caminho para a imortalidade se construiu a partir de uma visão peculiar – mas acurada – do que há em nós. Não se pode negar que haja muito de realismo na obra de Poe. Todavia, um realismo permeado de negatividade, mostrando aspectos sombrios de homens completamente destruídos, invariavelmente narradores de sua própria condição, e muitas vezes reflexos da alma alquebrada de seu próprio criador. São homens que observam um mundo prestes a ruir ao mesmo tempo em que uma casa adoece e morre junto com sua família. Homens que caem em ruína ao reconhecerem em si a própria crueldade, trancafiada em uma parede.

O horror a que Poe nos submete não tem relação necessária com o susto causado por uma cena ou com a violência de uma morte. Em sua obra, a sutileza de situações criadas pela própria ambientação torna nosso envolvimento muito mais intenso, fazendo com que o coração vá se acelerando aos poucos e, quando menos percebemos, estamos completamente submersos no mar de loucura criado por um autor cuja imagem se tornou símbolo de sua própria criação.

Mas o que nos faz, hoje, 170 anos depois da publicação de “O corvo”, ainda buscar as leituras de Poe e comprovarmos que, mesmo com a vida errática, entregue ao alcoolismo, falhando em sua tentativa de suicídio e finalmente morrendo em condições misteriosas, ele alcançou a famigerada imortalidade?

Simples. Nós somos o que Poe viu em nós. Há uma morbidez latente e eterna em cada pessoa, que se encaixa com perfeição na atmosfera romântico-decadentista de seus escritos. Há o medo de o pêndulo finalmente descer e nos alcançar. Há o sofrimento pela nossa Eleonora perdida fora e dentro de nossa alma, criando o que há de mais poético em sua visão de mundo.

Não há invencionices absurdas em sua literatura. Há, sim, a fantasia sobre o real. O fantástico e o horror jamais poderiam ser o mesmo depois de sua obra vir ao mundo. E não seríamos tão atraídos por esse mundo fantástico se não nos sentíssemos parte dele. Além disso, se a literatura cria mundos, não vamos esquecer que é o mundo que cria a literatura. Poe não escreve do nada, mas parte daquilo que observa. Seu interesse pela mente humana antecipa em anos a curiosidade dos simbolistas pelo “eu profundo” – e daí a ligação quase imediata de Baudelaire com sua obra, o que levou o francês a considerá-lo um “irmão de alma”.

Então, se há esse aspecto mórbido dentro de cada um de nós, abracemos nossa escuridão na literatura de Edgar Allan Poe e em tudo que ela gerou – dos discos do Paradise Lost aos filmes de Tim Burton. Não será tão ruim ver o corvo pousando sobre nossos umbrais e se acomodando sobre o busto de Atena, confrontando a sua loucura com a eterna e infrutífera busca por razão. Antes revestirmos nossa vida de arte, nos encararmos ou fugirmos por meio dela, do que nos tornarmos novos catalisadores de ódio como tantos que há por aqui.

É a loucura que nos fará humanos.

Enquanto o corvo diz: “nunca mais”.

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