Tenho mais opiniões que amigos

Lá está você, rolando a timeline do facebook como quem não quer nada. Até que, enfim, aparece algo que lhe interessa: uma exposição na puta que pariu supostamente insinuando pedofilia; senado dizendo que ser gay é doença; um homem pelado deitado no chão tendo os pés tocados por uma criança. Chegou a sua hora. A hora de dar sua contribuição ao mundo. De mostrar que você não é só mais um, inerte ao que acontece nele. Você está inteirado, e, mais do que isso, tem sua própria opinião sobre aquilo.

Então, você não abre a notícia. Os pormenores não interessam a você. Mas você, com toda certeza do mundo, clica no botão compartilhar e, acima da notícia, está seu tesouro. Um texto enorme no qual você discorre sobre tudo o que acha daquilo. Ai de quem discordar de você. Ai de quem comentar o contrário. Você não tem tempo pra opiniões diferentes da sua. Não há quem consiga te fazer pensar diferente. Afinal, você é uma pessoa bem resolvida, estável. Tudo o que você tem a dizer sobre absolutamente todos os assuntos é relevante. Não há nada, notícia alguma, um acontecimento sequer que fuja do seu clínico olhar.

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Sou o teclado flamejante da justiça!

Você está cansado de esquerdistas. Ou de fascistas. Você os acha o câncer do mundo. O erro de cálculo do cosmos. A espinha que surge perto da boca. Você os quer longe de você. Longe dos seus filhos. Longe do seu perfil nas redes sociais. Muda de lugar quando sentam do seu lado no ponto de ônibus e começam a falar. Você não aguenta ouvir tanta merda. É demais para seus ouvidos. É demais para sua moral. O ser humano que você se tornou não se mistura com esse tipo de gente. Esquerdistas – apoiadores de pedofilia e destruidores da moral e dos bons costumes. Conservadores – retrógrados, hipócritas e mal amados. Você os odeia.

Então um assunto sai de cena. Você volta a viver sua vida. Sua vida perfeita e transparente. Sem mentiras, sem máscaras – e provavelmente sem espelho. Você toma seu café e sai para trabalhar. Pega trânsito, se estressa, se atrasa, leva bronca do patrão. Nada fora do normal. Bate o ponto, entrada e saída. Volta pra casa. Pra esposa, pro cachorro, pros filhos, pra ninguém. Toma um banho, come alguma coisa. Vai deitar porque está cansado e, ali, naqueles minutos antes de pegar no sono, você se dá conta do quão insignificante é a sua vida pro curso do Universo. Se sente um bosta. Acha que deveria ser mais humilde, mais flexível. Concorda que não agiu direito em determinado momento de um certo dia. Que somos todos seres humanos, vivendo num planeta minúsculo de uma galáxia enorme que é apenas uma das milhares que existem. Você se redime, ali, sozinho. Jura que vai tentar ser melhor.

Mas, aí, você acorda na manhã seguinte. Rola a timeline do facebook. Outra polêmica. Sua existência volta a fazer sentido. Ali você nasce de novo.

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