O Recomeço de Tim Bernardes

“Nossa arte é nossa agonia transformada em razão”. Se Bukowski estava certo, a prova disso é Recomeçar, álbum solo de Tim Bernardes, vocalista d’O Terno, uma das bandas mais peculiares do rock nacional. Lançado há pouco mais de dez dias, foi, sem sombra de dúvidas, um chute na boca de quem ainda fala que não se faz mais música decente no Brasil.

A maneira como o álbum, produzido praticamente todo por Tim ao longo de três meses, se desenvolve através das faixas, é absurda: as cordas, os metais, os vocais suaves e angustiados, as letras densas. Tudo em perfeita harmonia e sintonia, pra fazer com que, ao final dos quarenta e três minutos, você sinta que ouviu uma coisa só, e ao mesmo tempo viaje por um universo de situações na sua cabeça. É um espetáculo sonoro e poético.

Recomeçar fala das mudanças constantes às quais estamos involuntariamente sujeitos, não importando o quanto tentemos resistir, fugir, ou nos esconder. A começar por “Talvez”, a segunda faixa do disco, antecedida por um instrumental que se justifica perfeitamente no decorrer das canções, ele fala de como a vida faz questão de arrancar de nós aquilo que julgamos ter de melhor pra que comecemos a cultivar algo novo, do zero. E de abraçarmos, sem medo, essa insolidez que é ser o que somos. “Se sou contra quem eu sou, não vou longe de onde estou”, diz ele em “Pouco a Pouco”.

Enquanto n’O Terno, seu projeto principal, Tim usa de um humor quase sádico para falar de nossos infortúnios, aqui ele olha pra dentro de si com honestidade e seriedade, e consegue, com maestria, nos levar a fazer o mesmo: olhar pra nós e perceber que somos início, meio e fim, e que em cada uma dessas etapas haverá uma dor a que não estamos habituados, e que passar por ela é fundamental para que possamos entender coisas que ainda nos são turvas.

Recomeçar é um CD pra ser escutado em dias nublados, trancado no quarto, com fone de ouvido, e depois ser digerido por dias, semanas, nos fazendo pensar sobre a diversidade de sentimentos que nos rodeiam ao longo da caminhada (essas músicas foram compostas, segundo Tim, num período de quase três anos). E é pra ser ouvido todas as vezes que a vida parecer sem saída, pra que nos lembremos – porque vivemos nos esquecendo – de que “a dor do fim vem pra purificar”, sempre.

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