“Nada é constante demais”

Posso dizer que foi uma necessidade quase física escrever sobre o novo disco do Bullet Bane. Nunca pensamos, ao iniciar esta revista, em fazer um jornalismo imparcial como se prega que deva ser o verdadeiro jornalismo. Escrevemos sobre nossas paixões – sem tomá-las como verdades universais, claro –, enchendo nossas páginas virtuais daquilo que nos move e nos motiva a continuar. Então, essa porrada na cara que é o Bullet Bane cantando em português fatalmente me levaria a escrever uma resenha. Não dava pra escapar. O disco saiu há uma semana e até agora não consegui parar de ouvir.

Particularmente, sempre preferi as bandas que cantam na nossa língua, não por ter alguma espécie de preconceito nem nada disso, mas apenas porque a relação com a canção se torna mais imediata ao ouvir o que me está sendo apresentado no idioma em que aprendi a entender o mundo. Provavelmente por isso o som do Bullet Bane não houvesse me tocado como aconteceu agora. Já havia sinais de mudança quando eles incluíram em seus shows sua versão de “Jorge da Capadócia”, registrada em seu CD ao vivo. De repente, veio a grata surpresa na coletânea Flecha Discos vol. 1, com três faixas da banda, todas em português, e uma melhor que a outra. Agora, a conclusão do processo: Continental.

Bullet Bane continentalAo ouvir, fui imediatamente arrebatado pelo som de vinil que inicia o disco, na introdução de “Curimatá”. Música mais tranquilinha, bem com aquele estilo introdutório, funciona como um cartão de visitas da banda e do disco, anunciando que “tudo tem seu tempo de chegar”. E claramente chegou um novo tempo para o Bullet Bane. Depois dessa introdução, a faixa que vai abrir de verdade o disco é “Gangorra”, já lançada como single há algum tempo, aos gritos de que “nada é constante demais”. Nesse ponto, percebemos que o álbum realmente pretende transmitir a ideia de inconstância, de que haja a necessidade vital de uma mudança sensível, de percepção, a mesma pela qual a própria banda passa nesse momento. Hora de gritar a plenos pulmões, hora de pogar, hora de ouvir o disco esperando ansiosamente o próximo show.

A galera que nos tem acompanhado aqui na revista já pôde entender a nossa relação com o hardcore. Música sempre foi o que nos definiu a vida, e, se sabemos que o som que ouvimos serve pra lavar a alma, Continental cumpre plenamente sua função. O disco joga na nossa cara a essência do hardcore nacional pós-anos 2000, enquanto exala boas vibrações.

O jeito é despertar, recuperar o fôlego e ouvir com atenção as palavras de ordem do disco. Afastarmo-nos de nós mesmos para ver melhor, preservando o ar que por vezes se torna rarefeito ao segurá-lo no peito pelo tempo que pudermos. No fim das contas, a ideia é deixarmos o que ficou pra trás, da mesma forma que deixamos as cinzas pelo chão, fechamos a porta e caminhamos. Todos vão chegar e partir, tudo vai mudar e isso é inevitável.

E, se tudo acaba, nada mais natural que a certeza da necessidade de começar outra vez. Porém sem se repetir. Esse é o ponto principal do disco e do que é pra mim a melhor música desse trabalho: “Labirinto”. A saída é reconhecer que há um labirinto dentro de cada um de nós e saber que há um destino que devemos traçar ao planejarmos nossas viagens interiores ao aceitar aquilo que nos transforma. Então, haverá novos começos – todos diferentes de nossos outros começos, de todos aqueles que vivemos.

Sempre achei que um álbum deve ter uma função pra quem ouve. Do contrário, ele não teria razão de existir. Continental, além de tratar de transformação em vários de seus versos, representa também as mudanças do Bullet Bane. E nos leva a pensar em todas as nossas metamorfoses, na sensação de mergulhar em nós mesmos e aprendermos a sentir o que está a nossa volta. Sentir, inclusive, a própria música. Resumindo: é um discaço foda, pra se ouvir no volume máximo.

4 comentários em ““Nada é constante demais”

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