“Apenas o amor nos salvará”

Já falei antes sobre essa banda sensacional que é o Rancore, quando escrevi a lista dos 10 CDs brasileiros que mudaram de alguma forma a minha vida. Mas, naquele contexto, falei de forma bem rasa sobre o que essa banda representa para mim, em particular. Embora todos da revista sejamos grandes fãs do som da banda, ela é a minha favorita, de fato.

A minha relação com a banda começou de forma amigável. Ouvi primeiro o CD Liberta, de 2008 – depois de ouvir a música “Respeito é a lei”, pois precisava aprendê-la para tocar em uma das bandas que tive por volta de 2011. Gostei muito do CD, que é uma paulada do começo ao fim, com exceção de Cresci, que é mais lenta. Fiquei tão instigado ouvindo “Voar”, “Escadacronia”, “Quarto Escuro”, com toda aquela energia positiva, que fui procurar mais material da banda, e acabei encontrando o álbum Seiva, recém-lançado à época, e do qual não gostei tanto.

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Durante mais de 1 ano, eu basicamente me recusava a ouvir o Seiva. Ouvi o Liberta mais vezes que posso contar. Mas, em 2012, um amigo meu basicamente desistiu de tudo o que fazia – trabalho, faculdade, planos – depois de ouvir “5:20” e me falar: quando ouvi essa música, tudo começou a fazer sentido. “Faça tudo o que quiser, você não tem certeza se vai cair. Um belo dia, tudo acabará, e o que você vai guardar?

Foi quase como atingir o nirvana. Uma música. Foi o que bastou para mudar tanto a vida de alguém. Me obriguei a ouvir o CD de novo. Uma, duas, três vezes. Até entender o conceito, o misticismo, a energia que aquelas músicas passavam. Entender o jeito livre de ser. Entrar na dança e não deixar o samba cair. Como diz na música que abre o disco: “Atravessa a alma, queima, alucina o animal em mim, que vive e ferve nesse ritual“. A música é o ritual. E não existe energia maior do que a que ela proporciona no corpo quando você sente de verdade. São coisas que só quem viveu o hardcore em sua essência entende.

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É até estranho, mas de todos os trabalhos da banda, o primeiro – Yoga, Stress e Cafeína – foi o último que ouvi. E nada me impactou mais naquele CD que escutar “estou sozinho numa multidão”. O CD todo em si não me chamou tanto a atenção, mas “M.E.I” e “Yoga, Stress e Cafeína” são sem dúvidas as músicas mais legais daquele trabalho que foi o ponto de partida da banda.

Em 2014, a banda anunciou alguns shows antes de entrar em um hiato, e eu tive a oportunidade de ir a um deles. E posso dizer com certeza: foi a experiência sensorial mais intensa da minha vida. O público parecia um mar de gente, todos gritando, cantando, chorando em uníssono. Eu me senti tão eufórico que rasguei a minha camiseta na segunda música. O calor do lugar, o cansaço, a falta de voz, nada mais importava ali.rancore2

É maluco como uma banda pode mudar tanto a gente, transformar a essência, nos fazer pensar e mudar tantos conceitos. Tudo com base no amor, como o próprio vocalista fala e não cansa de repetir em suas apresentações. Ouvíamos “amor, amor, amor, amor” vindo de Teco Martins como se fossem palavras de ordem. Pregar o bem, a paz, mesmo com músicas com uma pegada bem rápida. “Pode vir mulher, pode vir homem, pode vir rico, pode vir pobre, pode vir velho, pode vir jovem, pode vir preto, branco, amarelo, azul, vermelho, todas as cores, todas as tribos, vamos nos ajudar, vamos nos misturar. ” Palavras que ecoavam antes de ouvir Jeito Livre. As gargantas encontravam força para gritar: “Jeito livre de ser, e fazer acontecer o nosso amor”. Trazer a união, a tolerância com o próximo, pessoas que não conhecíamos, abraçadas a nós e emocionadas.

Falamos tanto ultimamente em toda a divisão que o ódio tem causado que muitas vezes nos esquecemos de falar um pouco do que nos une nessa vida. E o amor é a chave disso tudo. E bandas como o Rancore têm o poder de juntar uma massa de pessoas que muitas vezes nunca se viram antes, e transformá-las numa coisa única. E estaremos aqui, tentando manter isso vivo, pois como diria o Teco: “o que é forte permanece vivo.”

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