O rock não é um estilo musical

Quando eu era moleque, lá pelos meus treze, catorze anos, através desses dois caras que escrevem aqui na revista, conheci o rock’n’roll. Existia uma revolta enorme dentro de mim – aquela típica da idade –, uma vontade descontrolada de ser totalmente o contrário de tudo aquilo que me diziam pra ser. Eu tinha ódio de praticamente tudo ao meu redor, tudo parecia muito fútil, muito vazio, muito ensaiado. Eu não fazia a menor ideia de como lidar com todas as mudanças que estavam me ocorrendo. Até que, enfim, o rock apareceu na minha vida, e aí eu fui salvo.

As letras encharcadas de melancolia, as melodias desgovernadas que vinham ao encontro da bagunça que era minha cabeça, o sentimento de “foda-se tudo!” que os integrantes das bandas transmitiam. Isso, aos olhos de muitos, pode parecer o veneno de que precisamos pra nos afundarmos ainda mais nas nossas incertezas, e a verdade é que talvez seja mesmo. Hoje, com vinte e quatro anos de idade, dez anos depois do primeiro contato que tive com a música dessa forma, continuo não sabendo lidar direito com as mesmas questões.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que, como o título já disse, o rock não é um estilo musical. Ele é infinitamente mais que isso. Rock é libertação, é autoaceitação, é explosão, é rebeldia – que, com o tempo, passa a ser direcionada pro lugar certo. É muito mais do que ir a shows, usar roupa preta, ser barbudo ou cabeludo. Ele é, pra nós, uma válvula de escape, um meio de não enlouquecer por completo, um lugar onde encontramos abrigo – lugar esse que só pertence àqueles que o entendem dessa forma.

Acontece que, no último feriado, fomos ao show do Green Day em São Paulo, na Arena Anhembi. Ficamos, as cerca de 25 mil pessoas, umas sete horas em pé, ansiosos esperando a banda subir no palco. E, quando finalmente chegou a hora, fomos recompensados lindamente com a entrada explosiva da banda – especialmente do vocalista Billie Joe –, que não vinha ao Brasil desde 2010. O Green Day é, em sua matriz, uma banda punk, e, mesmo tendo tomado a proporção que tomou e feito discos com uma pegada mais pop de uns anos pra cá, o espírito do que é, de fato, o trio, continua vivo e sem indícios de que vá morrer algum dia.

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Green Day no palco. (Foto de Marcelo Brandt/G1)

Assim que os primeiros acordes foram sendo tocados, abriu-se uma roda no meio da galera: era hora de expulsar os demônios e comemorar o momento em que vivíamos enquanto estávamos ali. Hora de pôr pra fora toda a fúria pela caralhada de infortúnios que o ano de 2017 nos causou. Porque o mosh, pra quem está lá, pra quem sabe a razão de ele existir, nada mais é do que o momento que faz todo o caos da monotonia da vida fazer sentido. É no meio de toda aquela porradaria que encontramos paz, descanso e um lar, mesmo estando no meio de pessoas que, muitas vezes, nunca havíamos visto antes. Enfim, o mosh é a representação física de tudo aquilo que o rock significa pra gente. Mas, infelizmente, nem todos naquele dia estavam nessa vibe.

Em dado momento do show, um rapaz e sua namorada, já incomodados com o bate-cabeça há algum tempo, suponho, começaram a nos xingar, dizendo que estavam sendo incomodados, gritando pra gente tomar cuidado. A galera da roda, indignada, começou a gritar “é show de rock, cara, é show de rock! Vai mais pra lá que ninguém te acerta!”, e o cara cinicamente respondia “não. Eu paguei, vou ficar aqui”. E aí quase rolou treta, os seguranças chegaram perto, ficou um clima super chato, mas por sorte rapidamente tudo voltou ao normal. Curtimos o restante do show e podemos dizer que foi do caralho.

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Billie Joe em todo o seu esplendor. (Foto de Marcelo Brandt/G1)

Pois é, sabe o que eu disse no começo do texto sobre o rock ser um lugar somente praqueles que o entendem dessa forma? Então, pras outras pessoas, talvez, ele seja apenas uma música que tocou no rádio, um clipe na MTV, um cabelo pro lado, sei lá. Ninguém aqui tá querendo ficar cagando regra e dizendo o que você deve ou não deve fazer, longe disso. A vida é sua e ninguém além de você sabe o que é melhor pra ela. Mas se você chega num lugar que, por escolha própria, não é o seu, você não pode simplesmente exigir que as pessoas que lá estão não se comportem como querem só porque você está incomodado. Você pagou pra ver o show de boa com a sua mina, e outros caras pagaram pra bater cabeça e saírem de lá com a alma lavada. Ambos estão no seu direito, e, na boa, tinha espaço pra todo mundo naquele lugar.

O fato é: show de rock é pra rockeiro. É pra quem precisa daquilo, pra quem não encontra refúgio em nenhum outro lugar, pra quem vai, não somente pra ver os caras no palco ou escutar essa ou aquela música, mas pra quem encontrou ali, naqueles instantes, um sentido pra vida. Como disse Billie Joe durante a “Boulevard of Broken Dreams”, “sabe o que é legal? É que não tem muita gente filmando agora. Nós não precisamos do facebook. Não salve para depois. Viva agora”. E é isso mesmo.

Nós, através da música, encontramos o nosso lugar, e é isso o que eu desejo a todas as pessoas do mundo – inclusive pro cara que quase estragou um dos shows mais esperados de uma das primeiras bandas que eu escutei na vida.

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