“Não planejamos viagens se não queremos ir”

Cara, entrar no Hangar 110 neste último mês de funcionamento é no mínimo foda, afinal, simplesmente estar lá é, de certa forma, fazer parte da história do underground brasileiro. E lembrar que a história é feita de começos e fins.

No último fim de semana, estivemos lá para o show de lançamento do disco Continental, do Bullet Bane, com abertura do Manual e do Black Days. Enquanto se fecha um ciclo junto com as portas do Hangar, inicia-se outro com essa nova fase do Bullet Bane, com um disco todo em português, do qual já falamos aqui. Nada mais adequado do que unir ambas as coisas, num evento visceral, em que a gente pôde, mais uma vez, viver o que é o hardcore.

A abertura ficou por conta do Manual, banda na ativa desde 2013, seguindo um estilo bastante próximo do post-hardcore. Os caras mandaram muito bem abrindo a noite, embora merecessem um público maior. Isso às vezes é um problema no meio, já que muita gente vai pra ver as bandas principais e acaba esquecendo que o movimento só existe se houver um público apoiando as bandas. Com o fechamento de casas tradicionais como o Hangar, é realmente preciso que a galera cole nos eventos, pra manter e fortalecer a cena. De qualquer forma, quem não foi perdeu um show redondo, de uma banda competente pra caralho. Ah, quero chamar a atenção aqui pra música “Porão” – pra mim, o ponto alto do show.

Manual

O Black Days entrou no palco com boa parte do público ganho e disposto a ganhar aqueles que faltavam. Parece que a cada show os caras têm mais energia, sem contar que a presença do Bruno no palco é um negócio absurdo. Em pouco tempo de banda, eles conseguiram cooptar um público bem legal. Ver uma banda assim me dá mais vontade de dar umas porradas na cara de quem fala que não existe música boa no Brasil. Gente, tem muita coisa boa surgindo: é só correr atrás e buscar informação. Em tempos de internet, é quase uma ofensa tanta gente se prender à desinformação dessa maneira. Desafio vocês a ouvirem “O meu lugar” ou “Entre o caos e a (r)evolução” e evitarem aquela vontade de sair berrando junto, com a força que só o hardcore nos dá.

Black DaysAgora, cabe um aparte sobre algo que já mencionei em outros textos: quando vejo a galera subindo no palco ou alguém da banda descendo no meio do público, só consigo pensar que nada, nenhum outro estilo, nenhum movimento, absolutamente nada tem a dimensão que o hardcore tem; nenhuma música tem o poder de aproximar tanto público e artista, porque tudo acaba sendo uma coisa só. Não há ídolos, há amigos, há gente que fala a mesma língua e há muita verdade nisso. O artista não se coloca em um pedestal. E é disso tudo que tanta identificação é gerada, fazendo com que as letras sejam cantadas em uníssono. E só fazendo parte disso tudo é que a gente entende.

Depois dessa pequena digressão, Bullet Bane. Show de lançamento do disco novo é momento de saber se as músicas funcionam ao vivo. E, meus amigos, só posso dizer que funcionam pra caralho. O início do show seguiu a sequência de abertura do disco, com “Curimatá” pra entrar no clima e “Gangorra” pra iniciar a catarse. Eu juro que não quero ser repetitivo, mas não dá pra deixar de falar de novo que o hardcore é catártico pra cacete. Era muita energia rolando naquele lugar – quase duas décadas de energia acumulada num lugar que já abrigou e que vai continuar eternamente a ser a casa do underground, não importa quanto tempo passe.

Bullet Bane 2E toda essa energia estava lá, no palco, no público, naquela única voz que preenchia o Hangar. Cantando as letras do Bullet Bane e comprovando como a multidão se entrega com muito mais vontade ao cantar em português, a gente percebe como nos tornamos cúmplices das histórias e situações que as letras contam. Viver essa viagem é essencial. Nos afastamos de nós para ver melhor e nos aproximamos novamente. Nos deixamos influenciar pelo invisível. Planejamos nossas viagens. E todos queríamos estar lá, naquela hora, unindo vozes e punhos.
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PS: As fotos ficaram uma bosta. Mas o show foi tão foda que não dava pra parar pra tirar fotos. O importante é viver o momento, porque nada é constante demais.

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