Carta a um empático sofredor

December, 7th 2017.

Caro Caballero,

quero dizer que você pode jogar todos seus sonhos americanos no lixo. Todos os filmes a que assistiu, todas as séries, todas músicas que consumiu, os desenhos.

Se Nova Iorque era a felicidade personificada, pode esquecer tudo isso. Megalópole? Pluracidade? Cosmopolita? Apaga, apaga. Esquece.

Bem, ela até tem gente de todos os lugares do mundo sim, mas tá bem longe de ser uma cidade inclusiva.

Venderam-me uma escola. Uma das regras da escola era anti-bullying. Pensei: “ora, que genial, este deve ser um lugar bom”. Pensei.

O que eles esqueceram de me contar que estava incluso no pacote é que a própria cidade faz um bullying enorme com você.

Como Nova Iorque seria diferente nesse sistema capitalista competitivo, hein? Ingenuidade. A cidade força grupos a andarem entre si. Coreanos pra cá, chineses pra lá. E euzinha, brasileira, sozinha.

Thaís NY 1E o ápice da minha solidão foi quando eu estava andando pela High Line. Avistei uma bandeira que continha os seguintes dizeres: “Amerikkka firSSt”. Sim, era uma apologia à Ku Kux Klan e ao exército nazista. Era um enaltecer aos piores grupos, às piores chacinas que já existiram nessa Terra. Eram acompanhados de uma foto de Donald Trump. O governo que permite tudo isso. E eles sempre permitiram.

Eu me senti sozinha, porque ninguém mais olhava praquilo e se indignava. Ninguém. Eu me senti sozinha, aos prantos e todos estavam tirando fotos, aproveitando a paisagem. Eu me senti sozinha, porque enquanto eu sentia calafrios e chorava pelo ataque de 11 de setembro, as pessoas tiravam suas selfies, sorrindo. Eu me senti sozinha, porque o sonho americano está aí, para todo mundo consumir. Consumimos: falamos sua língua, comemos sua comida, usamos suas marcas, desbravamos suas terras e sonhamos o Novo Mundo. E eu não quero mais. Em toda a escola, só eu quem não quero mais.

Thaís NY 3Sabe, me senti idiota por escolher esse lugar. Eu sabia que estrangeiros não eram bem-vindos. Mesmo assim, não sabia que o que eu ia encontrar eram pessoas que bufariam por não terem paciência com alguém que está aprendendo a língua. Que não venderiam um café, de bom grado, mesmo tendo que falar um pouquinho mais devagar. Que não ajudariam um cadeirante implorando por ajuda. Que sentariam num lugar no trem e ocupariam o outro com suas bolsas pra ninguém sentar ao lado. Que não indicariam as direções dos lugares, inventariam que não são americanos, com olhares desconfiados, mesmo com suas rugas denunciando suas nacionalidades. Que comeriam de forma soberba, mesmo num restaurante brasileiro, pagando $30 por salgadinhos que eu mesma como na fábrica, antes de alguém sair de férias (e não tem nenhum luxo nisso).

Não esperava ficar tão triste aqui e ter de desmoronar cenários que consumi minha vida inteirinha. Mas no país da autossuficiência, prefiro desmoronar meus castelos na Disneylândia e adorar minha casinha taubateana.

Kind REGRETS,

Thaís.

 

Texto e fotos: Thaís Calado

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