Um adeus à cidade cinza

O encerramento de uma história que vai ficar na eternidade

Foi um caos. Mas não há nada de negativo nisso, ao contrário do que muitos podem pensar. Foi um caos bom, benéfico a todos que estavam lá naquele dia. E necessário. Esse “lá” é o Hangar 110 – sem dúvida a casa mais importante do underground paulistano nas últimas duas décadas. “Aquele dia” foi 23 de dezembro de 2017 – último dia de funcionamento do Hangar. E o caos estava sendo trazido até nós pelo CPM 22 – primeira e última banda a se apresentar naquele palco.

Nem sempre temos a chance de ver a história sendo contada. Muitas vezes nem temos noção de estarmos realmente fazendo parte dela, até podermos olhar pra trás e acreditar. Talvez no início quase ninguém percebesse a importância que aquela banda e aquela casa estavam tendo ou ainda teriam. No fim, talvez todos percebessem. Tanto que os ingressos para o show do CPM 22 foram esgotados em poucos minutos, o que levou a banda a marcar um show extra para o mesmo dia, com o fim quase instantâneo dos ingressos se repetindo.

Quem dera todos os shows no Hangar tivessem essa lotação. Fui a três eventos sold out nesse último mês de vida do Hangar: Pense/menores atos, Hateen e CPM 22. Todos eventos fodas, com bandas que tem o punch necessário pra arrebentar num palco diante de 50, 400 ou 10000 pessoas. Bandas que, assim como diversas outras, poderiam lotar qualquer casa de shows. Pena que não é isso que acontece, e casas importantíssimas como o Hangar acabam fechando definitivamente suas portas.

Muita coisa rolou dentro em frente àquele palco nessas quase duas décadas de atividade. Provavelmente todas as bandas que fizeram a história do hardcore nacional subiram naquele palco, sejam as mais puramente hardcore, sejam as que deram o pontapé para que surgisse o emo no Brasil. As pioneiras, as que estiveram na mídia, as que voltaram ao underground. Diversas bandas fundamentais do hardcore gringo também passaram por lá. Tudo colabora para a importância do Hangar, numa estrada que foi aberta juntamente com o CPM 22.

Naquele começo de noite, o público aguardava ansioso pra fazer parte de um momento que jamais se repetirá. O CPM vinha fechar uma história que eles mesmos começaram. E o que nós vimos foi uma banda completamente à vontade no palco que era deles. Claro, não poderia ser diferente: o Hangar 110 foi desde sempre a casa da banda. E, em diversos momentos, a casa de todos que estávamos lá, enquanto nossas vidas se encontravam.

IMG_20171223_195351510O público estava completamente conectado com a banda, que montou um repertório competentíssimo, fugindo dos lugares comuns, fazendo com que o show não perdesse a pegada em nenhum momento. Foi um dos shows mais constantes que eu vi na vida, de uma banda plenamente consciente de sua própria importância e da importância daquele show. Embora o set apresentasse diversas músicas do disco novo, Suor e sacrifício, houve espaço para relembrar o primeiro disco, A alguns quilômetros de lugar nenhum, ainda independente, e para homenagear outra das bandas seminais da cena underground: Gritando HC.

Com tudo isso, mesmo com o corpo não aguentando mais, a galera pedia mais. Ninguém lá queria o fim daquele show. Embora o CPM fizesse mais um show naquele dia, pra quem estava saindo do Hangar sabia que não poderia mais voltar.

IMG_20171223_190356388Foi uma despedida, mas também uma celebração. Uma homenagem a tudo que a casa representou e ainda representa. O Hangar fechou, mas é eterno. Porém, o encerramento das suas atividades devia servir como um alerta: bandas e público agora têm de se unir pra que não aconteça o mesmo com outros espaços underground. Todos esses lugares dependem da gente colando nos shows, comprando o merchan das bandas e apoiando o movimento do qual nós fazemos e pretendemos continuar fazendo parte.

A história do Hangar se encerra com um show pra ficar na memória, junto com todas as histórias que foram contadas lá, com suor e sacrifício e com o hardcore pulsando nas veias. E como todo mundo lá cantou, continuaremos, Hangar, a honrar teu nome.

Valeu, CPM, por essa despedida foda.

O Hangar fechou. Longa vida ao Hangar!!

 

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