Primeira regra: não fale sobre este texto

O primeiro trabalho de Chuck Palahniuk talvez seja, depois da Bíblia, a obra com mais trechos fora de contexto rodando por aí e servindo de justificativa pra todo tipo de atitude escrota imaginável, o que segundo o próprio autor, nunca foi um problema: “as pessoas estão se matando e matando umas às outras sem a minha ajuda”, disse ele em entrevista. Mas, calma, vamos começar do começo:

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Clube da Luta é um livro de 1996 escrito pelo senhor citado ali em cima e adaptado para o cinema três anos depois pelas mãos mais que competentes de David Fincher (Se7en – Os sete crimes capitais, A rede social). Ele conta a história de um angustiado homem solteiro de classe média que encontra sentido na vida ao conhecer o vendedor de sabonetes artesanais Tyler Durden e de os dois criarem um clube onde homens voluntariamente brigam entre si, a fim de botarem pra fora todo o estresse causado pela vida moderna que, focada em criar personagens, não dá espaço para que as pessoas sejam quem realmente são.

Desde seu lançamento, diversos clubes da luta surgiram mundo afora, incluindo desde empresários até adolescentes. Certa vez, aqui mesmo no Brasil, um homem entrou num cinema e atirou em algumas pessoas durante uma sessão do filme – questionado, mais tarde, ele disse adorar Clube da Luta. Há várias páginas do Facebook que colocam Durden, o anti-herói do filme, como uma espécie de modelo de masculinidade e virilidade. E eu já ouvi falar sobre um cara que lê trechos do livro para os amigos como se fossem textos religiosos.

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“Você não é o seu emprego, nem quanto dinheiro tem no banco, nem o carro que dirige, nem o que tem dentro da sua carteira”; “Tudo é uma cópia de uma cópia de uma cópia”; “Apenas depois de perder tudo é que você é livre para fazer qualquer coisa”; “As coisas que você possui acabam possuindo você”; “Vocês não são especiais. Vocês não são um belo e único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo”. Clube da Luta é um amontoado de frases de efeito colocadas no momento certo para mostrar apenas uma coisa: a raça humana deu errado. Não há o que fazer ou como mudar isso.

Como disse Palahniuk numa outra entrevista, “meus livros tratam de criar um modelo de sociedade e fazê-lo funcionar até quebrar”. A utopia que se torna distopia. Clube da Luta trata da nossa eterna mania de achar que existe um sistema capaz de salvar a humanidade. Mostra que nosso maior problema não é o capitalismo, e que ele não é necessariamente o gerador do consumo impulsivo por coisas que não nos servem pra nada. Nosso problema, na verdade, é o desejo incontrolável de simular uma vida impossível de ser vivida – e as propagandas de televisão nos pegam justamente aí, manipulando um sentimento totalmente primitivo. A TV não cria necessidades, apenas as direciona.

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Clube da Luta é, portanto, não uma obra difícil de ser interpretada, mas difícil de ser digerida. É muito fácil ver Tyler Durden como herói, como um modelo a ser seguido, ainda que a própria história desconstrua isso depois ou que o próprio livro, tido por alguns como um manual de iniciação anarquista, tenha sido adaptado para o cinema por um montante de US$ 63 milhões. É muito doloroso pra nós aceitar que somos hipócritas da pior espécie. Não entra de jeito nenhum na nossa cabeça.

É por isso que sempre vai ter garçom mijando na sopa de algum famoso – história que o autor ouviu diversas vezes desde o lançamento do livro –; gente criando seitas como resposta às seitas já existentes; adolescentes criticando o capitalismo na rede social mais rentável do mundo, atrás de MacBooks das empresas de seus pais. Tapar os ouvidos para a real crítica de Clube da Luta e usar apenas trechos e frases que nos são convenientes é certamente a resposta mais intuitiva que podemos dar a essa que é uma das obras mais controversas dos últimos tempos.

Mas a mensagem de Chuck Palahniuk, que vira e mexe ganha uma reedição, continuará por aí, alertando às gerações, que têm cada vez mais artifícios para sucumbirem à superficialidade nas relações: o que você possui não define você, muito menos quem você é nas redes sociais, mas sim o que você faz para tentar ser melhor e, assim, fazer da sociedade um pouco mais humana – ainda que não haja a menor garantia de sucesso.

Que quem tem ouvidos, ouça.

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