Produtividade: a palavra-chave para uma geração ansiosa

Talvez esse título seja um tanto exagerado. A produtividade em si não é, necessariamente, um problema. Há muitas pessoas extremamente produtivas que não conseguiriam viver a vida de outra forma. Isso funciona pra elas, e tudo bem. Já do outro lado, têm aquelas que não lidam nada bem com o assunto que, há tempos, tem sido pauta de grande parte das palestras motivacionais e dos livros de autoajuda encontrados no mercado.

A matemática é simples: se um patrão que têm funcionários que produzem em média cinquenta smartphones por dia ganhando x por hora trabalhada deseja aumentar seu lucro, basta fazer com que os funcionários dobrem a produção dentro das horas de serviço que eles já prestam à empresa. E é aí que entram na história os palestrantes, cujo trabalho é basicamente fazer com que os empregados enxerguem o quanto suas vidas não têm sido vivida de forma correta e que o sentido de tudo está em fazer aquilo que já fazem da melhor maneira possível.

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O lobo de wall street, de Martin Scorcese

Eloquência perfeita, frases de efeito na hora certa, gritos, pulos, piadas, cabelo arrumado, roupa com bom caimento. Pronto. Com o bolso cheio o palestrante vai pra casa feliz da vida. E mais feliz ainda ficou o patrão, ao ver seus funcionários derramando lágrimas diante das palavras lindas e encorajadoras daquele sujeito.

Agora, quando esse discurso sai do ambiente empresarial e vai pra boca de produtores de conteúdo e artistas em geral, temos um questão ainda mais séria. Porque, diferente das empresas, que usam desse artifício visando o lucro e nada mais, esse pessoal o faz apenas como um meio de promover a si e validar seu sucesso, não se importando com como quem está ouvindo ou lendo aquilo vai receber a mensagem. O resultado? Uma geração assustadoramente ansiosa.

O stories do Instagram, por exemplo, é campeão em nos fazer sentir mal. Vemos nossos artistas preferidos vivendo vidas agitadas, cheias de gente legal, uma correria que só a vida deles têm. A mensagem por trás disso? “Nós não paramos um minuto e por isso estamos onde estamos”. Aí lá vamos nós, comparar nossa rotina à deles, perceber o quanto somos fracassados, esquecer que cada pessoa é uma pessoa e que aquilo que é mostrado na tela nem sempre é o que parece e que, ainda que seja, não é sinônimo de felicidade.

Um estudo realizado ano passado pela Real Sociedade de Saúde Pública do Reino Unido e pela Universidade de Cambridge, no qual foi estudada a relação de 1.500 jovens de 14 a 24 anos com as mídias sociais, apontou o Instagram como a principal rede causadora de ansiedade e depressão. E isso acontece devido ao apelo dos influenciadores digitais a, através dele, viver uma vida produtiva, ter um corpo escultural ou ter um relacionamento que seja o sonho de qualquer pessoa.

Enquanto ainda estamos enrolando na cama depois de o alarme do celular tocar, nosso youtuber, cantor ou blogueiro favorito já chegou da balada, tomou banho, passou café, foi na feira, visitou a avó, fez ioga, andou de bicicleta e comprou um cachorro — adotou, digo. Não nos contentamos em viver uma rotina comum (casa-trabalho-casa) justamente por termos com quem nos comparar, e isso está nos matando por dentro a cada dia, sem que nem nos demos conta.

Precisamos nos lembrar que, da televisão pra internet, só mudaram o tamanho da tela e a linguagem. Ainda são pessoas mentindo pra nós e nos fazendo ansiar por uma vida da qual — talvez — nunca iremos desfrutar. A verdade é que não precisamos estar fazendo algo de extrema relevância o tempo todo, e não estar fazendo esse algo não significa que sejamos fracassados ou que as coisas deram errado pra gente.

Felicidade são momentos incríveis demais para que tenhamos a preocupação de postá-los imediatamente. Aqueles momentos que não fazem sentido pra ninguém no mundo exceto pra nós, e que serão lembrados enquanto tivermos memória. Por isso, vivamos da melhor maneira que pudermos, aproveitando as oportunidades que nos forem interessantes e dando um passo de cada vez, sem muitas cobranças e, principalmente, sem comparações — do jeito que mamãe ensinou.

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