Raio gourmetizador é uma faca de dois gumes

[…] Subi até o último andar e de lá avistava todo o shopping. Era muito feio. Imaginei que, se dali a cinco mil anos existisse uma outra civilização, ainda haveria excursões de turistas curiosos em conhecer as várias etapas da história da raça humana. Primeiro visitariam as misteriosas pirâmides do Egito. O homem primitivo. Em seguida fariam visitas aos shopping centers, para conhecer o auge de uma sociedade “arcaica”, quando um curioso papel chamado “dinheiro” determinava o que o cidadão da época poderia ter ou não ter. […] A estátua de uma dona de casa, em frente de uma prateleira, simbolizaria a dúvida entre um sabão em pó que faz bolinhas e outro que deixa mais branco. Bolinhas ou brancura? Que dúvida! […] (Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, lançado em 1986)

Tem um colega meu sempre fala que, daqui a vinte anos, quando olharmos nossas fotos antigas e nos depararmos com o cabelo raspado do lado e a barba enorme, sentiremos vergonha. Provavelmente ele esteja certo. O ano era 2014, e eu me lembro exatamente do dia em que uma moça que trabalha comigo me chamou pra ver uma matéria, em algum site, que falava sobre a nova tendência masculina – lumbersexual: o estilo lenhador. Oposto do metrossexual, o “homem metropolitano” do fim dos anos 90, abertamente obcecado em cuidar do corpo e da aparência, o lumbersexual aparentemente não dá a mínima pra isso. Não faz a barba, usa sempre camisa xadrez, calça jeans e bota – de preferência, toda fodida -, e ostenta um olhar de poucos amigos.

hipsters

Pouco tempo tempo depois, começaram a surgir as barbershops, que nada mais eram que casas responsáveis por manter sua barba alinhada e seu corte de cabelo em dia, além de, diferente das barbearias tradicionais, oferecer cerveja artesanal, charuto e uma partida de bilhar, enquanto não chega sua vez de dar aquela revisada no visual. Ah, e tudo ao som de Bob Dylan, Muddy Waters e Johnny Cash. As barbershops passaram a ser o lar dos hipster-lenhadores, que logo ganharam uma linha de cosméticos só pra eles, com direito a shampoo com fragrância de cerveja e óleo pra barba com cheiro de madeira envelhecida. Assim, estava montado o kit do homem de verdade do século XXI.

Na mesma mão, a onda de comida gourmet tomou conta de São Paulo e, consequentemente, de todo o Brasil. Hamburgueria, brigadeiria, gelateria, carneria, churreria. Tudo agora recebia esse adjetivo – o “gourmet” – como um meio de deixar o produto mais caro sem, verdadeiramente, melhorar sua qualidade. Chefs de cozinha, antes verdadeiros bichos do mato, ganharam status de celebridade. E a árdua profissão de cozinheiro se tornou uma das mais cobiçadas por pessoas de todas as idades. Masterchef tem culpa no cartório? Óbvio.

O hambúrguer, aliás, talvez tenha sido o mais afetado por essa onda. De comida simples, democrática, rápida e barata, passou a ser artigo de luxo, ao qual poucos têm acesso. Isso sem falar nas combinações bizarríssimas (burguer com tomate seco diz alguma coisa pra você?) e na decoração cafona que falha miseravelmente ao tentar emular um pub europeu. O pão com carne e queijo, meus amigos, virou ostentação.

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Todavia, ambas as tendências, que acabaram por se cruzar no meio de caminho e hoje são praticamente a mesma coisa, têm seu lado bom.

Hoje o homem se cuida mais e, o melhor de tudo, não precisa se preocupar com o que os outros vão dizer. É muito importante que exista um lugar onde ele, antes engessado por padrões sociais, possa ser vaidoso e se sentir bem, se sentir homem. E não há dúvidas, também, de que o gourmet, popularizado por programas de competição culinária, trouxe certa conscientização à população do que é comida de verdade e do quanto estávamos comendo mal ao nos entupir de produtos ultraprocessados. As pessoas voltaram a cozinhar em casa, nas prateleiras dos supermercados as opções triplicaram, marcas famosas se reinventaram de forma bem menos agressiva à saúde do consumidor. Estamos, com certeza, comendo melhor.

O problema é quando isso chega a um ponto tão extremo que não sabemos mais o caminho de volta. A barba acabou por se tornar o principal símbolo de virilidade. Nem a genética é desculpa mais para não se ter pêlos na cara, já que hoje existe uma gama de cosméticos que farão com que eles cresçam e te transformem, enfim, num homem de verdade. Sem barba, sem acesso ao clubinho dos machos alfa, onde se toma cerveja jogando bilhar e fumando charuto.

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Restaurantes que vendem comida boa, a preço acessível e sem afetação perderam clientes pras casas hipster – isso quando não se tornaram uma delas – com um cardápio bem meia boca e uma vitrola tocando qualquer coisa que seja (o importante é que é uma vitrola). Trocou-se o paladar pelo ambiente, pela marcação no Facebook. Trocou-se a comida da tiazinha que tem 26 anos de cozinha pela do chef tatuado até o pescoço que não sabe nem temperar feijão, mas que posta foto de uns puta prato bonito no Instagram. Tudo em nome do status.

Deixamos, assim, que um estranho entre em nossa vida e nos diga quem devemos ser. Continuamos sendo alienados pela indústria, perdendo nossa identidade, virando massa de manobra. Continuamos alimentando o capitalismo, suprindo necessidades que não tínhamos até que ele fez com que tivéssemos. E quem sabe, no futuro, as pessoas realmente se espantem ao ver registros de uma geração que viveu cegamente segundo aquilo que mandaram que ela fosse. Uma geração definida pelas dúvidas mais intrigantes da história da humanidade: shampoo com fragrância de cerveja stout ou IPA? Churros gourmet com recheio de doce de leite de mandioca ou de brigadeiro de maçã verde?

Que loucura…

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