Especial Oscar: Eu, Tonya

“Cada um tem a sua própria verdade”. É sob essa afirmação que a cinebiografia de Tonya Harding, ex-patinadora artística, se desenvolve. Em Eu, Tonya (I, Tonya), que trata de um incidente que chocou o mundo do esporte nos anos 90 (a patinadora Nancy Kerrigan foi vítima de um atentado durante uma sessão de treinamento e teve o joelho quebrado a mando do marido de Harding, sua concorrente nas Olimpíadas), cada envolvido tem a sua versão da história.

Vinda de um lar carente e arruinado, Tonya Harding (Margot Robbie) é, desde muito jovem, vítima da ambição da mãe, LaVona Golden (Allison Janney), que vê na filha um grande talento para a patinação e investe nela toda a renda da família. Tonya se destaca rapidamente, ganhando a devida atenção e o respeito de treinadores, mesmo fazendo questão de ser uma pessoa odiável o tempo todo. Mais tarde, ela se torna a primeira mulher americana — e a segunda no mundo — a dar, em competições, o Axel Triplo, um dos saltos mais difíceis e bem pontuados da patinação no gelo, o que lhe garantiu medalha de ouro no Campeonato Nacional e prata no Mundial.

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Ao mesmo tempo, Tonya precisa lidar com os problemas com a mãe, que nunca viu nela algo mais que um investimento. Para fugir dos abusos, ela decide ir morar com o namorado, Jeff Gillooly (Sebastian Stan), que já havia se revelado agressor algumas vezes. Como era de se esperar, o relacionamento dos dois se torna um inferno e, mesmo sendo constantemente espancada e humilhada, Harding não consegue deixar de ver nele a única pessoa por quem realmente foi amada, pensando, por vezes, merecer as surras.

Eu, Tonya seria quase inassistível se não fosse a habilidade do diretor Craig Gillespie em trabalhar a ironia dos fatos. Com linguagem documentarista à base de entrevistas reconstruídas com bastante liberdade poética, quebra da quarta parede e uma excelente montagem (pela qual, inclusive, está concorrendo ao Oscar), o filme mostra a capacidade que as pessoas têm de se inocentarem mesmo quando todos os fatores indicam que elas são culpadas. Aqui, vemos nas falas dos “entrevistados” negação, contradição, autorreflexão e, principalmente por parte de Harding, autodepreciação.

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Allison Janney como LaVona Golden

Todo o elenco está excelente, com Sebastian Stan e Paul Walter Hauser, que interpreta Shawn Eckhardt, amigo de Jeff e suposto segurança de Tonya, bastante dedicados em seus papéis. Mas os destaques mesmo vão para Margot Robbie, que vive uma protagonista amargurada, vulnerável, solitária, segura do próprio talento e revoltada com as injustiças no esporte, e para Allison Janney, que faz da mãe da protagonista uma das personagens mais odiáveis da história do cinema americano. São totalmente justificáveis suas indicações ao Oscar de, respectivamente, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.

Eu, Tonya acerta ao reconstruir um drama real com o devido respeito, ao denunciar a elitização da patinação artística, que nunca pôde ver na atleta, de família desestruturada e péssima reputação, a persona ideal e, principalmente, ao mostrar a toxicidade da mídia, que fez com que a América amasse Tonya Harding por suas conquistas e depois a odiasse com todas as forças, ao acusá-la de ter participado do atentado contra Nancy Kerrigan — coisa que ela jura não ter feito. É um filme que, sem sombra de dúvidas, merece a aclamação que teve, merece as indicações e, claro, nossa mais calorosa torcida.

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