Especial Oscar: Três anúncios para um crime

Uma mãe em luto buscando justiça pela morte da filha. Essa deve ser a premissa de inúmeros filmes, naquele nível bem Supercine de suspense de fim de semana. Contudo, Martin McDonagh soube exatamente o que fazer com um mote que poderia parecer batido, transformando-o no baita filme que é Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri).

O filme começa evocando aquele clima meio faroeste moderno, jogando uma trilha sonora caipira sobre as imagens da clássica cidadezinha do interior que ninguém conhece, mas deixando de lado os tons amarelados (ou até o preto-e-branco de Nebraska, por exemplo), para se deixar dominar pelo vermelho dos três anúncios colocados por Mildred Hayes, cobrando uma atitude do xerife da cidade, William Willoughby, a respeito da captura do homem que estuprou e assassinou sua filha meses antes.

Além de tentar impulsionar a busca pelo culpado, a personagem de Frances McDormand causa um enorme desconforto a todos – inclusive ao seu filho – ao colocar em um dos outdoors a frase “estuprada enquanto morria”. Willoughby, vivido por Woody Harrelson, se vê obrigado a lidar novamente com o caso, enquanto tem de conviver com suas próprias angústias.

Pronto: essas é a história do filme que, como falei, poderia ser um filme qualquer, daqueles com os quais a gente pouco se importa no dia seguinte. Mas o andamento dado a tudo aquilo que se segue à colocação dos outdoors é fundamental para que se justifique toda a atenção dada ao longa. Hayes está muito longe de ser uma personagem que busca cativar o público. Ela não é a heroína, tampouco a vilã. Ao mesmo tempo em que nos compadecemos com o sofrimento de uma mãe que perdeu a filha, questionamos sua postura e a maneira como trata as pessoas – que mais tarde se revela ser a mesma desde antes da tragédia. As cenas entre a protagonista e James, personagem vivido por Peter Dinklage, são cruciais para entendermos as intenções do diretor ao não criar sua personagem como uma mãe sofredora ou como uma heroína interiorana que conquista a simpatia de todos.

3Nesse filme, não há maniqueísmos. Os personagens de McDormand e Harrelson apresentam nuances e camadas que vão se revelando e precisam ser descobertas a cada minuto que ambos têm na tela, o que faz com que o filme não seja previsível em momento algum. Embora o roteiro não seja perfeito, ele é muito muito bom, com algumas reviravoltas extremamente interessantes – aquelas surpresas que tornam a obra diferente de muito do que se faz nesse gênero. Essas surpresas tornam o filme impossível de ser desvendado antes do seu fim: o espectador realmente não sabe o caminho que os personagens vão seguir.

Apesar das boas atuações das quais já falei até agora, uma em particular contribui de todas as formas para o andamento e para as reviravoltas do filme: Sam Rockwell. Seu personagem – o policial alcoólatra Jason Dixon, conhecido na cidade mais por ter torturado um negro do que por seu trabalho em prol da comunidade – muitas vezes parece guardar mais ódio dentro de si do que a própria Mildred Hayes, embora não se percebam as razões desse ódio. Entretanto, à medida que Dixon vai se desenvolvendo e ganhando tempo de tela, percebemos que não havia nada a entender: todo o caos e confusão do personagem precisavam ser organizados dentro dele mesmo, para que ele pudesse ser o que precisava ser. Não é à toa que Rockwell vem sendo constantemente elogiado pelo papel.

Por fim, Três anúncios para um crime é uma história de vingança, mas também de redenção, contada de uma maneira nova, em que ambos os aspectos revelam cada personagem como sendo essencialmente humano – e, como tal, precisando lutar com suas dores. Afinal, ninguém pode fazer isso no nosso lugar, ou ser responsabilizado por aquilo que só compete a nós. Vale a reflexão enquanto esperamos a corrida pelo Oscar.

Nos vemos lá.

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