Especial Oscar: Me chame pelo seu nome

“Me chame pelo seu nome, e eu te chamarei pelo meu”. Esse é o tipo de frase que já nasce icônica e que ganha mais importância de acordo com a obra em que é inserida. Mais ainda se ela der título a tal obra.

É o que acontece em Me chame pelo seu nome (Call me by your name), o mais europeu dos concorrentes à categoria de Melhor filme no Oscar 2018. Confesso que, depois de ver o trailer, cheguei ao cinema ansioso para ouvir essa frase e ver se ela realmente possuía o poder que parecia ter. E minhas expectativas foram confirmadas.

Sendo uma produção conjunta França/Itália/EUA/Brasil e tendo falas em italiano, inglês, francês e alemão, o filme, que teria tudo para ganhar na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, vai ter seu trabalho dificultado ao concorrer a Melhor Filme com os favoritos Três anúncios para um crime e A forma da água. Não que isso vá atrapalhar o desempenho do filme, que desde antes de estrear já diz a que veio.

Basicamente, o filme narra a história de amor entre o jovem Elio e o acadêmico Oliver, que vai passar uma temporada na casa dos pais do garoto, na Itália.

É um filme que, sem qualquer dúvida, tem a alma europeia, não apenas por se passar na Itália, mas pela estrutura que é criada pelo diretor Luca Guadagnino, com cenas curtas, em que a beleza das imagens é o tempo todo privilegiada, e diálogos que parecem rasos por vezes, mas que se revelam importantíssimos para a compreensão de como se constrói o amadurecimento de Elio – tema principal do longa.

Sim, Me chame pelo seu nome é, acima de tudo, um filme sobre amadurecimento – o que parece agradar à Academia, uma vez que outro longa que concorre este ano, Lady Bird, trata do mesmo tema, porém sob uma ótica feminina. Elio não é um personagem simples. Crescendo num ambiente intelectualizado, o rapaz é versado em música clássica, transita com naturalidade por vários idiomas e mostra-se um leitor voraz. Construído dessa forma, parece bastante óbvio que Oliver interesse mais a ele do que a jovem Marzia – também belíssima; mas, em meio a toda a beleza que há em redor do protagonista, ele fatalmente precisaria buscar algo mais.

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Assim, com a descoberta do desejo, Elio persegue aquilo que lhe satisfaça – não sem a resistência típica da adolescência. A questão é: como resistir ao desejo, se tudo ao seu redor é um imã aos sentidos? As paisagens italianas, as construções, o sol, a água, as pessoas. A fotografia do filme é de um apelo estético impressionante e é impossível que essa experiência não envolva as ações do protagonista. Tudo leva ao desejo, e a presença de Oliver vai potencializar o cenário, até que Oliver não resista.

Diferente do que possa parecer devido a toda a exposição do filme nas redes sociais, Me chame pelo seu nome não é sobre um casal homossexual lutando para ficar junto e ser aceito. Também não é uma história de amor que rompe a barreira da sexualidade (definição que já havia surgido anos atrás, à época de O segredo de Brokeback Mountain). Call me by your name é uma ode à beleza, seja às paisagens italianas, seja à beleza masculina personificada em Armie Hammer, seja à beleza delicada de Timothée Chalamet e Esther Garrel. Dentro dessa ode, temos uma narrativa sobre descoberta – do desejo, do sexo, do amor, de si mesmo, numa junção belíssima de sentimento e sensações, de delicadeza e sensualidade, como as estátuas que compõem a cena de abertura e as melodias tocadas ao piano no decorrer do filme.

Nada sobra e nada falta, pois tudo se torna parte da vida e do olhar do protagonista e, se observado sinceramente, fará parte da vida de quem assistir também. “Me chame pelo seu nome, e eu te chamarei pelo meu”.

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