Especial Oscar: A forma da água

A forma da água é provavelmente o filme mais comentado dos últimos meses, seguido de perto por Me chame pelo seu nome. Este último surgiu como um fenômeno de discussões na internet como um filme de nicho – o que por si só renderia muitos posts e comentários nos grupos de cinema – mas transcendeu suas impressões iniciais e está aí na corrida do Oscar. Já o primeiro pode vir a ser a consagração de Guillermo Del Toro, ponto alto de uma carreira que começou a ser construída no México há mais de 30 anos.

Del Toro é um diretor respeitado nos Estados Unidos no mínimo desde sua obra-prima O labirinto do Fauno, pelo qual concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme em Língua Estrangeira, tendo sido derrotado por Pequena Miss Sunshine e o alemão A vida dos outros, respectivamente. Embora fique aquém de O labirinto…, A forma da água pode repetir os feitos do diretor ao arrebatar os prêmios técnicos deste ano e ainda ir além, repetindo o prêmio de Melhor Diretor, já alcançado no Globo de Ouro, e conquistando o de Melhor Filme.

O que deve ficar claro é que, apesar de não ser tão primoroso quanto O labirinto do Fauno, A forma da água é um grande filme. Devido a toda a discussão nos grupos em redes sociais, o longa virou motivo de crítica dos diferentões que adoram falar mal de tudo que se torna hypado. A questão é que o hype nem sempre é ruim e A forma da água é um filme que merece ser visto – e no cinema de preferência.

Explico: um dos grandes méritos de Guillermo Del Toro sempre foi a plasticidade de seus filmes. A direção de arte e a fotografia sempre são belíssimas e, por isso, o impacto da tela grande é muito maior. Em A forma da água, o diretor revisita a Guerra Fria, que vai servir como pano de fundo para uma história que, mais do que uma alegoria da guerra, fala sobre minorias, encaixando-se perfeitamente em nosso tempo.

a-forma-da-agua-0Diversas críticas ao filme mencionam a simplicidade do roteiro. Mas, sinceramente, qual é o problema em ser simples? A meu ver, nenhum. O longa tem uma proposta e cumpre essa proposta tranquilamente. A criatura representa em si todos os excluídos que são destituídos de sua voz, ao ser antagonizada pela figura de Strickland (Michael Shannon), de cujo ódio ela é vítima.

Eliza (Sally Hawkins) é mulher e muda. Chamada o tempo todo de “mudinha”, como se não tivesse um nome, exerce um trabalho subalterno, assim como sua amiga Zelda (Octavia Spencer), que é negra e sufocada pelo marido. Às vezes, ambas exercem sua “liberdade”, fumando escondidas das câmeras juntas com outros empregados subalternos. O melhor amigo de Eliza, Giles (Richard Jenkins) é homossexual, forçado a reprimir seu desejo por uma vida de rejeições e de solidão. As controversas cenas de masturbação também representam uma espécie de libertação de Eliza, presa a sua própria solidão.

Nesse contexto, a aproximação da protagonista com o Homem-Anfíbio vivido por Doug Jones (que NÃO repete seu papel em Hellboy como muitos estão dizendo) é natural – e não há nada de ruim nessa obviedade, justamente pela forma como é abordada.

E essa é uma questão importante: o cinema, no seu pouco mais de um século de existência, acaba esbarrando num número limitado de temas. O que efetivamente faz a diferença é a maneira como esses temas são abordados. E A forma da água é um filme poético, plástico, em que a beleza, muitas vezes em contraposição à selvageria e à violência personificadas pelo personagem de Shannon, é fundamental. Daí a importância do cinema. Daí a importância do criador de monstros Guillermo Del Toro – ele próprio parte de uma minoria, o latino, o mexicano no meio hollywoodiano.

Não estou dizendo que A forma da água é o melhor filme do ano. Talvez seja. Talvez a Academia siga o Globo de Ouro e não o premie como melhor filme. Dificilmente ele vai perder as categorias técnicas, embora Dunkirk seja uma ameaça nas categorias Mixagem e Edição de Som. Mas o que podemos fazer é esquecer essa história toda de premiação, esquecer a bobagem de todo esse hype das redes sociais e apreciar a poesia e a beleza sombria da obra de Del Toro.

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