Especial Oscar: The Post

Ao olhar os cartazes de The Post: a guerra secreta, com os nomes de Meryl Streep e Tom Hanks em um destaque muito maior do que o normal, já sabemos que os atores são algo muito maior do que o filme. Apesar disso, posso dizer que o filme me tocou pela sua história, talvez pela minha relação pessoal com o jornalismo. Ou talvez pela sua qualidade mesmo. Não sei. Posso dizer que, como crítico, eu não tenho o distanciamento necessário para analisar The Post.

Mas, com distanciamento ou sem (o que realmente não importa, devido ao tipo de jornalismo que escolhi fazer aqui na revista), uma verdade é inabalável: não é à toa que Meryl Streep se tornou essa figura onipresente nas indicações ao Oscar. Sua atuação e a do Tom Hanks realmente justificam seus nomes aparecendo como carros-chefe do longa. Assim como em O destino de uma nação, é a atuação dos protagonistas que conduz a narrativa, embora aqui de maneira muito mais interessante do que no filme de Gary Oldman.

Apenas a título de comparação, é impressionante ver a fragilidade que Streep incorpora a sua Kay Graham, numa construção diametralmente oposta à de Miranda Priestly, sua personagem em O diabo veste Prada, numa mostra da versatilidade e do talento da atriz, que já provou de todas as formas por que é a melhor atriz de sua geração e uma das melhores de toda a história do cinema americano.

Kay é a herdeira do jornal The Washington Post após a morte do marido. A empresa está prestes a abrir seu capital, colocando suas ações à venda, e ela tem de enfrentar o conselho do jornal e está completamente insegura uma vez que, como mulher, ela não é respeitada como o marido e o pai foram.

5a1c9b8e3863dSegue-se a isso a revelação de documentos ultrassecretos do governo dos Estados Unidos sobre o envolvimento do país na guerra do Vietnã. Essa revelação foi feita após parte dos documentos serem enviados ao The New York Times. Ben Bradlee, personagem de Hanks, vê nesses documentos, a oportunidade para impulsionar o Post.

Aí é que o filme começa a mudar. Steven Spielberg transforma o que poderia ser uma narrativa sobre a rivalidade entre os jornais numa história sobre a liberdade de imprensa. É impressionante ver como a trama cresce, apoiando-se na qualidade de seus protagonistas. Streep vai dando mais vida à sua personagem de forma que ela possa tomar as rédeas da situação até chegar a uma decisão crucial, enquanto Hanks conduz suas ações de maneira firme, opondo-se a todos que, em determinado momento, estão contracenando com ele.

Apesar da temática inicial, The Post não é sobre rivalidade empresarial ou coisa que o valha. The Post é sobre a crença em um jornalismo de verdade, um jornalismo que tenha compromisso com a verdade, doa a quem doer. Num momento em que grande parte dos jornais são partidários e funcionam de acordo com seus próprios interesses, é até poético (ou irônico, talvez) ver essa representação na tela de cinema. Quando o The New York Times é proibido de publicar os documentos do governo, parece se tornar questão de honra que o Post publique, sob todos os riscos. Graham e Bradlee assumem esse risco, não em nome do que eles poderiam lucrar com isso, mas em nome da liberdade de expressão. Em tempos em que tal liberdade é questionada aqui no Brasil mesmo, me parece não haver discussão mais importante do que essa.

Streep e Hanks trazem uma verdade impressionante para seus personagens, com a qual realmente nos envolvemos. Se, como é dito no longa, “a vitória do Post é a vitória de todos os jornais”, acreditar no que estamos vendo na tela do cinema é acreditar na vitória da liberdade. Espero que não seja preciso lutar por ela.

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