Especial Oscar: Corra!

Apesar das inovações narrativas impressas por Christopher Nolan em Dunkirk, cabe a Corra! o título de filme mais inovador e peculiar entre os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme deste ano. Como viria a acontecer depois com Mãe!, de Darren Aronofsky, filme mais controverso de 2017, o trailer de  Corra! prometia o que não entregava. E isso não é necessariamente ruim.

Mais conhecido por seu trabalho em comédias, o diretor Jordan Peele criou uma história que transita entre gêneros sem se prender a nenhum. Ao assistir ao trailer, parece que a única coisa a esperar da película é uma história de terror. Tal estratégia de marketing poderia levar o longa a se tornar mais um filme de nicho, que agrada a alguns e afasta a tantos outros. Foi, portanto, uma surpresa quando Corra! tornou-se um fenômeno de bilheteria, arrecadando US$255 milhões em contrapartida a um custo de apenas US$4,5 milhões. Além disso, o filme foi exibido tanto em multiplex quanto em cinemas de arte, arrebatando públicos dos mais variados.

Outro ponto fora da curva foi quando o filme arrebatou o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme – Comédia ou Musical (!) enquanto no Critic’s Choice Awards venceu na categoria Melhor Filme de Ficção Científica ou Terror. Por outro lado, Daniel Kaluuya vem acumulando indicações e prêmios de Melhor Ator, sendo a única real ameaça à premiação de Gary Oldman (por sua caracterização como Winston Churchill em O destino de uma nação) – a não ser que a Academia resolva homenagear o recordista em estatuetas Daniel Day-Lewis por aquele que supostamente seria seu último papel (em Trama Fantasma).

get_outConsiderando a importância que o longa de Jordan Peele vem conquistando, percebe-se que o mais importante não é classificá-lo de acordo com um gênero, mas reconhecer a importância de conseguir transcender essa necessidade eterna que se criou de encaixar tudo em determinado padrão.

Corra! é construído a partir de diversos elementos de filmes de terror para que se possa criar a tensão necessária ao apresentar a história de Chris (Kaluuya), rapaz negro que está prestes a conhecer a família de Rose (Allison Williams) em um fim de semana no campo. O rapaz está visivelmente incomodado com a situação, o que se agrava quando, a caminho da casa dos pais da moça, o casal atropela um cervo e a polícia é chamada, assumindo uma postura claramente racista. Contudo, ao chegar à casa, Chris é muito bem tratado pelos pais de Rose. Excessivamente bem tratado, eu diria. O que temos aqui é, pois, uma família branca recebendo o namorado negro da filha, numa casa luxuosa no campo, cujos empregados são negros. Agrava-se o desconforto do protagonista pelo fato de o comportamento dos empregados ser no mínimo estranho, como se eles não tivessem expressão ou emoções.

A sensação de sufocamento de Chris, causada pela situação toda ao seu redor, vai ficando cada vez maior, principalmente depois de descobrir que a mãe de sua namorada é hipnóloga. Ele tenta se acalmar em ligações por vezes surreais para seu amigo Rod (Lil Rel Howery), que fica desesperado ao pensar no amigo rodeado de tanta gente branca. As participações de Rod são fundamentais para aliviar a tensão do filme ao mesmo tempo em que deixam o espectador com certa desconfiança: poderiam as teorias malucas do amigo serem reais?

Talvez. O que importa saber aqui é que a história pode ir em qualquer direção, chegando onde menos se espera, numa obra que mistura suspense, terror, drama e comédia. Ou, como disse o próprio diretor, documentário. Acima de tudo, e apesar do valor que deve ser dado à dificuldade de classificação e às inovações de roteiro, é uma grande metáfora sobre o racismo – tratado em vários momentos de forma não tão metafórica assim. É pouco provável que conquiste o prêmio principal da Academia (Três anúncios para um crime e A forma da água são os favoritos), Corra! entra para o panteão dos filmes de baixo orçamento – este ano, juntamente a Lady Bird e Me chame pelo seu nome – que mostram a sua inegável importância. E, tratando do problema do racismo institucionalizado, é um dos filmes certamente mais importantes de 2017.

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