Especial Oscar: Trama Fantasma

Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson, é um filme de amor. Mas está muito longe disso que você está pensando. Não é um uma história de amor bonita. Não é aquela história de amor em que o casal luta para ficar junto, sofre, se desespera e no final ambos ou morrem de amor ou mostram que vale a pena toda aquela dor e ficam juntos olhando o horizonte. É uma história em que surgem alguns “eu te amo”, mas apenas para encobrir a doença, a obsessão e a toxicidade em um relacionamento em que os envolvidos acabam por se deixar dominar, numa intrincada rede que vai sendo tecida sem ninguém ver – e que dá título ao filme.

O filme marca a despedida de Daniel Day-Lewis das telas e não podia deixar de render ao menos uma indicação ao Oscar para esse ator que já nos brindou com papéis memoráveis, três dos quais lhe renderam estatuetas de Melhor Ator. Embora possa ser ofuscado na premiação deste ano pela atuação também brilhante de Gary Oldman em O destino de uma nação, se essa for efetivamente a última obra de Day-Lewis, ele fará uma saída em grande estilo.

O longa narra a história de Reynolds Woodcock, estilista renomado, metódico e irascível, querido pela princesa da Bélgica e amado nos grandes círculos. Desenvolvido a partir de uma personalidade egoica, Woodcock trata, por vezes, as pessoas como coisas – meios úteis para desenvolver seus vestidos perfeitos. Ao conhecer Alma, vivida com perfeição por Vicky Krieps, ele se apaixona à sua maneira e a toma como sua musa. Entretanto, logo é revelado ao telespectador que ela seria apenas mais uma peça na obra de Woodcock. Ao elogiar a perfeição do corpo da moça, ele apenas demostra como ela lhe será útil para modelar seus vestidos.

trama fantasma 2Até aqui, Trama Fantasma pode parecer a história de um homem que trata os outros como coisas. Mas não, porque a partir daí a história começa a se emoldurar. Alma não é uma mulher frágil e em nenhum momento do filme se configura como uma personagem planificada. Ela não deixa que o estilista exerça sobre ela o poder que exercera sobre outras mulheres que passaram por sua vida ou sobre as outras pessoas ao seu redor. Aos poucos, ela se mostra ao espectador como uma mulher com personalidade própria, provocadora e sagaz.

Novamente, essa descrição da personagem induz a um erro de interpretação. Trama fantasma não é uma obra panfletária que busca demonstrar a força da mulher sobre o mundo patriarcalista – embora tal realidade opressora possa ser reconhecida no ambiente da alta costura dos anos 1950 retratado no filme. Não. Essa é uma obra sobre um amor doentio erigido no centro de uma via de mão dupla. Alma é provocadora e sagaz, mas também pode ser maquiavélica. Reynolds precisa o tempo todo demonstrar seu poder. E ambos se mostram indubitavelmente dependentes um do outro, presos nessa teia que ambos traçaram e na qual esconderam seus segredos inauditos.

Como é de seu feitio, Paul Thomas Anderson nos entrega uma narrativa sustentada por uma fotografia belíssima. As cores do filme são em essência claras, refletindo todo o brilho do mundo que se propõe a mostrar, com sua elegância e requinte. Há, porém, momentos em que a luz dá lugar à opacidade, dando indícios de que o universo interior das personagens será mostrado. A trilha sonora é envolvente, de maneira que os pontos de tensão do filme sejam apontados para a audiência, que deve se deixar levar pela construção sonora, formada não apenas pela trilha, mas por sons ambientes emitidos pelos próprios personagens, que fazem com que possamos perceber suas mesmas sensações.

À medida que ambos os protagonistas vão se desenvolvendo, percebemos como as posições podem se inverter para depois voltarem a ser o que eram e eternizarem-se nesse jogo de trocas constantes, como uma linha que se esconde sob o pano para depois reaparecer guiada pela agulha que o fere. E no final dessa trama, há ferimentos por todos os lados – tantos quantos os closes capturados pela câmera que busca os dedos que avidamente costuram as peças que compõem o filme. Metaforicamente, há muito sangue por detrás da beleza, assim como há muito por detrás dos personagens de Day-Lewis e Krieps. Ao fim da exibição, impossível não nos sentirmos envoltos também por essa trama.

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