Ao menino que sobreviveu

Sinceramente, pensei em mil maneiras para começar este texto. Acho que nunca tive tantas opções assim. Com tantas ideias e tanta coisa pra falar aqui, não tenho nem uma justificativa decente pra explicar por que até hoje não escrevi um texto sobre Harry Potter. Mas pelo menos agora tenho o pretexto ideal: o espetáculo Harry Potter e a Pedra Filosofal in concert, que chegou ao Brasil no último fim de semana.

O espetáculo em si poderia ter sido muito melhor do que foi: a mudança do teatro do Shopping Eldorado pra um suposto anfiteatro no Allianz Parque desagradou muita gente que comprou seus lugares marcados e foi surpreendida com um “sente-se onde quiser” ao entrar nas arquibancadas. Jamais saberemos como seria a experiência se ela ocorresse como deveria. Mas… Harry Potter é Harry Potter e, mesmo com problemas, o espetáculo foi de arrepiar, afinal assistir a um dos filmes mais importantes da sua vida com uma orquestra tocando a trilha sonora ao vivo ali na sua frente é algo que não se repete tão facilmente. Além disso, por mais que entendamos como a trilha sonora contribui para o envolvimento do espectador com um filme, a força de uma orquestra ao vivo é incomparável.

Eu não cresci junto com Harry Potter. Tinha acabado de fazer 17 anos quando J.K.Rowling lançou o primeiro livro e já tinha 21 quando o A pedra filosofal chegou aos cinemas. Li os três primeiros livros apenas em 2003 e assisti a O prisioneiro de Azkaban no cinema em 2004. Aí não teve mais jeito. Harry Potter entra na vida da gente pra não sair mais. Li todos os livros, assisti várias vezes a todos os filmes, tatuei um viratempo e tenho tudo isso como melhor companhia para aqueles fins de semana longos em que eu quero passar um tempo comigo mesmo.

Nisso tudo, Harry Potter tem 20 anos e definiu muito do que seria a literatura infanto-juvenil contemporânea, silenciando quem acreditava que seria apenas uma febre passageira daquela geração. Basta lembrar que o Allianz Parque estava lotado no último sábado e que a maior fila de toda a CCXP 2018 era para a lojinha com as lembranças de HP – e com gente de todas as idades – e isso pode ser tudo, menos febre passageira.

HP e a pedra filosofal

Harry Potter é isso. É o menino que sobreviveu. Independente da idade, acompanhamos o crescimento do bruxo mais famoso da atualidade – aquele que, apesar de ter sido o único a derrotar Você-sabe-quem e de ter uma fortuna no Gringotes, cresceu como um pária, no armário embaixo da escada, como muitos de nós, que demoramos uma eternidade pra saber qual era o nosso lugar no mundo e talvez nem tenhamos certeza ainda. Acompanhamos suas primeiras amizades surgirem, seu primeiro amor e todas as suas primeiras decepções. Estávamos com ele quando descobriu que não era “só Harry”, mas alguém que podia ser especial. Mas não especial porque estava destinado a destruir o maior bruxo das trevas da história, e sim porque ele era capaz de ter algo que Voldemort nunca teria: pessoas que o amavam, que fariam de tudo por ele e que sabiam que ele também seria capaz de se sacrificar.

Então, ao descobrir aos poucos quem é Harry Potter, descobrimos também um pouco de nós, sem interessar a que casa pertençamos. As cicatrizes emocionais também estão em Draco Malfoy, que despe sua máscara junto a seus pais e mostra o quanto de humano há dentro de si. Snape carregou suas cicatrizes por toda a vida e, enquanto Harry sofria escondido no armário da casa dos Dursley, ele caminhava por Hogwarts carregando no rosto o fardo de ser quem era. E foi fiel ao que sentia até o fim.

1-harry-potter-and-the-philosophers-stone

Talvez esse texto seja a resposta pra quando me perguntam por que eu gosto tanto de Harry Potter. Não me importam comparações e comentários estúpidos que a internet sempre traz. Se, algum dia, algum de nós já se sentiu excluído, sem um lugar ao qual pertencer, J.K.Rowling nos mostrou que há um lugar pra todos nós. A sensação de chegar em Hogwarts pode estar bem perto – ou talvez seja uma memória bem guardada do momento em que nos encontramos. Nossa Hogwarts merece ficar guardada num lugar seguro dentro de nós.

E se daqui a algum tempo, me perguntarem se Harry Potter ainda faz parte da minha vida, a resposta provavelmente vai ser a mais óbvia possível: “Always…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: