Voltamos a 64

Queria que a premissa que o título desse texto traz não fosse verdade. Estamos em 2018, mas 1964 nunca esteve tão presente. Golpes políticos, protestos, professores apanhando por melhores condições e queima de arquivo para silenciar aqueles que lutam por justiça e melhores condições. Falar que estamos vivendo numa democracia parece até um sacrilégio, vendo tudo que tem ocorrido, pelo menos no último mês.

Marielle Franco. Vereadora eleita com mais de 46 mil votos. Negra, feminista, ativista dos direitos humanos. Foi executada na última quarta-feira, 14, no Rio de Janeiro, cidade da qual era legisladora. E por que digo que foi executada? Não poderia ser apenas mais um dos inúmeros casos de assalto, visto que a violência no Rio de Janeiro chegou a proporções estratosféricas? Talvez. Mas o fato é que, se você comparar qualquer notícia de latrocínio que tenha ocorrido, dificilmente encontrará uma em que a vítima tenha levado precisos 4 tiros na cabeça. Tudo que se pode apurar sobre os fatos você encontrará mais facilmente em algum site de notícias com mais detalhes.

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Quando falo que Marielle foi executada, precisamos levar em consideração o que ela fazia e representava. Num Rio de Janeiro em que foi preciso uma intervenção das forças federais, em que generais dizem que “precisamos de uma garantia de que não haverá outra comissão da verdade”, e que tem uma das Polícias Militares mais mal preparadas e corruptas do país, ela se tornou relatora contra casos de abuso de poder e violência contra moradores de comunidades mais carentes, que não por acaso, são as que mais sofrem com isso. E isso incomoda.

Como ativista dos direitos humanos, Marielle no dia 10 de março, deu voz a denúncias de abusos policiais na favela do Acari, Zona Norte. Coincidentemente, 4 dias depois, ela é morta com 9 tiros.

A comoção social após o assassinato de Marielle tomou conta não somente das redes sociais: milhares ao redor do país foram às ruas para pedir por justiça. Mas como dizem: “o Brasil não é para iniciantes”.  Digo isso porque, mesmo com toda a comoção, ainda teve gente que tentou desqualificar e justificar de algum modo o ocorrido Marielle. Os fascistas de uma raça desconhecida (visto que aqueles que criticam os direitos humanos só podem ser de uma raça ainda não identificada) destilaram seu veneno e até comemoraram que uma vereadora do PSOL foi morta. Não precisamos nem pensar muito para descobrirmos que parcela da população foi essa, pois isso seria duvidar de nossas faculdades mentais. Destilar ódio alegando ser “ponto de vista”, dizendo que Marielle mereceu morrer porque “defendia bandidos” ou questionando “e os policiais que morrem todos os dias? ”, não faz de você o detentor do saber. Só mostra o quão insensíveis as pessoas podem ser diante de tragédias que acontecem todos os dias. Não precisamos de mais ódio nem de minimizar acontecimentos tão graves. Não é hora de ficarmos separados por discordarmos ideologicamente. Essas tragédias afetam a todos nós.

BRAZIL-CRIME-FRANCO

A perda de Marielle só nos mostra o quão doente nossa sociedade está. A morte dela não pode e não será apenas mais uma dentre tantas que acontecem todos os dias. O que queremos é justiça. Justiça para Marielle, para Anderson Gomes, para todos os policiais que foram mortos em serviço, para Claudia Silva que foi baleada pela própria PM do Rio e arrastada enquanto era levada para o hospital. Queremos justiça para todas as vítimas de abusos e violação de direitos que são fundamentais aos seres humanos. Não esqueceremos, não descansaremos. Não deixaremos que os fantasmas da ditadura nos assombrem. 2018 não se transformará em 1964! Não enquanto estivermos aqui!

Marielle, presente!

5 comentários em “Voltamos a 64

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  1. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    “A perda de Marielle só nos mostra o quão doente nossa sociedade está. A morte dela não pode e não será apenas mais uma dentre tantas que acontecem todos os dias. O que queremos é justiça. Justiça para Marielle, para Anderson Gomes, para todos os policiais que foram mortos em serviço, para Claudia Silva que foi baleada pela própria PM do Rio e arrastada enquanto era levada para o hospital. Queremos justiça para todas as vítimas de abusos e violação de direitos que são fundamentais aos seres humanos. Não esqueceremos, não descansaremos. Não deixaremos que os fantasmas da ditadura nos assombrem. 2018 não se transformará em 1964! Não enquanto estivermos aqui!
    Marielle, presente!”

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