Caballera sim, graças a Deus!

Caballera, no dicionário espanhol, significa:

Que cavalga ou vai a cavalo.
ou
Uma pessoa obstinada que não se deixa abalar por nenhuma situação.

Nunca andei a cavalo. Aliás, tenho medo só de pensar na possibilidade. Porém a minha obstinação em seguir acreditando “apesar de” é digna de uma caballera.

Por isso (cavalos à parte) falemos sobre o motivo de eu estar aqui. Estou aqui porque o silêncio precisa ser rompido. Estou aqui porque nós, mulheres, precisamos de espaço para sermos protagonistas de nossas histórias. Estou aqui porque os homens precisam ajudar na abertura desse espaço. Estou aqui porque “o instante existe” e mulher é, sim, “desdobrável.” Eu sou.

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Existo porque resisto!

Virgínia Woolf, em Um teto todo seu, brada que “a indiferença do mundo, que Keats, Flaubert e outros homens geniais achavam tão difíceis de suportar, não era, no caso dela, indiferença, mas hostilidade. O mundo não dizia a ela, como dizia a eles: ‘Escreva se quiser, não faz a diferença para mim’. O mundo dizia, gargalhando: ‘Escrever? O que há de bom na sua escrita?'”. Ela. Eu. Você, leitora. Nós somos, muitas e muitas vezes, silenciadas por uma sociedade machista, sexista e fascista, que descredibiliza nosso discurso, simplesmente por sermos mulheres.

Acha que eu estou exagerando?

Então enumere aí quantas filósofas você conhece. Quantas sociólogas você conhece. Artistas (tente pensar em antes do século XX), cineastas, líderes políticas, enfim… Encheu os dedos das duas mãos? São a maioria? Pois é…

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Conhece?

Isso não quer dizer que elas não existam. Não mesmo! Isso quer dizer que, durante séculos, elas – e nós – fomos silenciadas. É por isso que a história do silêncio é o foco central da história das mulheres, pois, de acordo com a historiadora e ativista Rebecca Solnit, no livro A mãe de todas as perguntas, o silêncio permite que as pessoas sofram sozinhas, que mentiras floresçam, que crimes sejam impunes. Ou seja, sem voz somos desumanizadas.

Justamente por isso ser uma caballera é tão importante. Afinal, trata-se de uma revista criada por 3 homens, que (após a saída de um integrante) me convidaram para escrever, que se interessam honestamente pelo que eu tenho a dizer, que sabem a importância do apoio à mulher. Eles não querem me calar. Não! Eles estão “na contramão atrapalhando o tráfego”, batendo de frente com o status quo, porque desejam, em parceria com as mulheres, escrever outra história. Polifônica. Polissêmica. Múltipla. Humana.

Dessa forma, quando rompemos o silêncio, o sangue das mulheres violentadas todos os dias, física e psicologicamente, não desaparece. Ele espalha. É substância desenfreada de dor e de graça. E, em meio à polifonia de vozes – hoje aqui na Los Tres Caballeros, amanhã em meio a multidões – criamos a ótica do não esquecimento, porque o sangue delas também corre dentro de nós. Transcende.

Então, a partir de agora, é uma por todos

e todos por todas!

2 comentários em “Caballera sim, graças a Deus!

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