A Arcádia pós-moderna de Teco Martins

Finalmente!! Depois de muita espera, saiu o CD solo do nosso querido Teco Martins. (Leiam o texto ouvindo o disco. O link tá lá embaixo.) Quem conhece apenas o seu trabalho como vocalista do Rancore pode até sentir certo estranhamento, mas, se formos analisar toda sua trajetória, chegaremos à conclusão de que esse era um caminho lógico bastante lógico.

Vejamos.

Depois do petardo de Yoga, stress e cafeína, com “o meu otimismo está cansado de falhar”, o Rancore dá o passo inicial em sua viagem rumo à positividade no disco seguinte: Liberta é um belo disco, com uma ideia central que marca a identidade da banda, costurada entre as músicas e muito bem representada na faixa-título, com seu  “libertar-se do mal e só se preocupar com o bem”; em “Voar” – minha preferida do disco e uma espécie de desdobramento de “Liberta” – e em “Castelo”, que traduz perfeitamente o carpe diem, nos mandando respirar e sentir o lugar, seja qual direção sigamos.

Seiva só vem coroar a viagem hardcore-espiritual da banda, com suas músicas representando signos do zodíaco e diversos estados de humor. É um disco cuja qualidade torna difícil escolher a melhor música, porque, depois da semipsicodelia inicial de “Ritual”, é impossível não se envolver com as canções. Então, em vez de “a melhor música”, é mais adequado escolher aquela que nos toca de acordo com nosso espírito. “Jeito livre”, por exemplo, segue a ideia de liberdade trabalhada no disco anterior. Elementos da natureza continuam presentes em canções como “Mulher” e “Samba”, e no clima fugere urbem de “Transa”.

Então, temos que fazer um cálculo aqui pra entender todo o desenvolvimento da obra do Teco: subtrai-se o peso característico do Rancore, potencializam-se os elementos naturais, soma-se um pouco de delicadeza. O resultado disso tudo foi o Sala Espacial. Quem ainda não ouviu “Bula”, “Cigana” e “Aurora”, clássicos dos shows do Teco, para de ler esse texto e vai ouvir agora porque essas músicas são uma celebração da vida, um passo em direção à própria descoberta e um motivo pra querer dançar (até cair) e botar um sorriso no rosto. Ouve e depois você volta. Porque aí você vai estar preparado pro disco novo.

A melhor definição de Solar já está no próprio título. É um disco iluminado, com cheiro de natureza, com músicas que nos levam a uma viagem cheia de árvores, pássaros livres, poeira, mar, tartarugas, sereias, “Verão e melancia” – título do primeiro single. O disco começa com “Células” e sua luz entrando pelas frestas da janela, numa viagem sonora que culmina numa espécie de baião moderno. Como diz a letra, “tudo começa aqui”, nessa célula inicial do disco.

“Lèlövéy” funciona como um mantra, com uma letra bem bicho-grilo, que serve pra nos lembrar de que esse mundo precisa de um pouco de maluquice, descontração, uma dose de nonsense e de paz. É pra lavar a alma com delicadeza, antes de entrar no clima etéreo de “Sal grosso”.

teco-martins-fotoO disco todo é uma viagem interior, sublimada em forma de canções. Ao colocar nelas sua alma, Teco alcança a nossa alma também. A brasilidade se constrói em meio à natureza, à vida na roça, numa quase epopeia árcade, afastando a urbanidade e celebrando a existência, numa mistura cultural que apresenta várias facetas, como a emulação de um ponto de umbanda em “Adorei” ou o universalismo – visceral em “Ir e voltar” e intimista em “Música para o amor da minha vida”, que finalmente foi registrada em disco. Entre essas duas, a natureza retorna numa conjunção cósmica em “Amoreiras-Ipê”, para depois terminar com a brejeirice sertaneja de “Aos pés do cajueiro”.

O disco é de uma riqueza musical belíssima, resultado de toda a trajetória musical e pessoal de Teco Martins. Nesse clima de pós-modernidade, velocidade absurda da vida e violência em todo canto, nada mais especial que ouvir um disco desses e regar a vida com um pouco de amor.

Agora é aguardar pra ouvir essa odisseia árcade ao vivo, dia 12/05, aqui em Taubaté. Valeu, Teco.

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