Sobre arte e flores que nascem no asfalto

A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.

(Pablo Picasso)

E a verdade é sempre nova, diria Lacan. Então, justamente para que as múltiplas verdades sejam apreendidas e para que não nos paralisemos face à desordem, existe a arte: um mergulho no próprio caos, e para lá da razão, em que se encontram as razões do ser no seio da própria incompreensão.

Todo ser humano é um artista em sua essência, conforme a teoria do teatrólogo Augusto Boal, e, exatamente por isso, nós precisamos ter a consciência de que a arte é um instrumento político e social de transformação. Ela é – em meio às incertezas, aos sólidos se desmanchando no ar, ao constante desassossego – a flor que nasce no asfalto e que fura o tédio, o nojo e o ódio.

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“Quando tudo for pedra, atire a primeira flor.”

De acordo com Boal, há dois tipos de pensamentos críticos: o Sensível – ligado às sensações e  emoções – e o Simbólico – ligado às palavras e aos símbolos. Somente através da simbiose entre essas duas formas de pensar, o ser humano é capaz de produzir arte para, através dela, se defender da opressão sensorial. Com isso, se vê capaz de produzir leituras particulares da realidade, o que facilita o entendimento do mundo de outro ponto de vista, expandindo-se, assim, intelectualmente.

Estamos vivendo um momento de ocultamento e dissimulação do real. Alguém duvida? No entanto, o contato com uma obra de arte (seja ela um poema, uma peça teatral, um espetáculo de dança, uma pintura, etc) contribui para uma experiência sensível e transformadora. As sensações pulsam. Transbordam.

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Guernica, de Pablo Picasso – Representação artística do bombardeio da cidade Guernica, no dia 26 de abril de 1937.

Isso leva à descolonização do olhar e, dessa forma, potencializa a pluralidade de ideias. É  por meio do seu compromisso de resgatar a condição humana de criador que superamos a alienação em busca da autonomia.  Sim! A arte tem a força de desestabilizar as relações de poder, pois com ela torna-se possível imprimir um pensamento crítico à ordem estabelecida, incentivando dessa forma a capacidade contestadora e revolucionária de todos nós.

Sejamos todos, então, a flor no asfalto! Artistas inconformados ao empenharmos todo o nosso ser no senso crítico e na recusa em aceitar fórmulas fáceis, clichês prontos ou verdades absolutas. Vamos experimentar a transgressão de um olhar mais oblíquo, desajustado, sensível e humanizado. Sejamos a própria arte, consumindo-a, transmutando-a, produzindo-a. Caleidoscópicos. Talvez essa seja a  chance “de devolvermos ao mundo as flores que foram mortas por rajadas de egoísmo“.

 

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