Arte e guerrilhas, danças e revoluções

Em 1999, foi criado o Napster, programa de compartilhamento P2P, protagonista de uma batalha jurídica gigantesca que começou quando o Metallica processou a empresa e se posicionou publicamente contra o compartilhamento gratuito de arquivos. Apesar disso, o estrago – ou a revolução – já havia começado e não havia sinal de que parasse por ali. A indústria fonográfica mudou não apenas com o surgimento do MP3, mas também com a facilidade de troca de arquivos entre usuários, que acabava por tirar o produto das mãos dos artistas e das gravadoras.

A partir daí, ou a indústria se adequava ou seria engolida pela internet. Em 2005, o Radiohead inovou ao lançar seu In Rainbows por meio de download digital antes de lançar as cópias físicas em vinil e em CD. E mais: os fãs pagariam quanto quisessem pelo download ou poderiam baixar de graça. Foi uma porrada sem precedentes na cara da indústria – e isso vindo de uma banda que algum tempo antes tinha escolhido fazer um show conceitual, sem patrocínio, apenas com recursos próprios e com uma lona branca em redor do palco, influenciados pelos conceitos apresentados no livro No logo, de Naomi Klein.

Mudando de cenário, mas ainda no que eu considero uma consequência da revolução do Napster, tornou-se cada vez mais fácil fazer downloads de filmes e de séries via torrent, o que tornou um computador pessoal a maior fonte de conteúdo da história. De repente, não havia mais a necessidade de ir ao cinema, ou de esperar o filme chegar às hoje praticamente extintas locadoras, ou que algum canal o exibisse. Tudo ao alcance dos dedos.

O passo seguinte dessa revolução na indústria cultural seria dado pela criação de dois programas hoje extremamente populares: Netflix e Spotify. O primeiro apresenta um catálogo satisfatório para a maioria das pessoas por um preço acessível. Você paga pouco e tem acesso a um bom acervo de filmes, séries, documentários e desenhos para assistir a hora em que quiser, alguns com possibilidade de download. O segundo apresenta um catálogo gigantesco, ao qual você tem acesso sem ser assinante, mas sem downloads e com muitas propagandas. Já resolve boa parte da questão. Se você assinar, faz download do que quiser no seu computador ou celular. É o fim do consumo de cultura como conhecíamos há alguns anos, certo?

Aqui cabe um grande porém e alguns exemplos: eu e muita gente ainda conservamos nossos discos de vinil e não é difícil encontrar quem afirme que nada substitui essa experiência; a qualidade de um CD também é bastante superior à de um arquivo em MP3. Quanto ao cinema, filmes como Dunkirk e A forma da água, pra ficar apenas em obras recentes, perdem muito do que podem fornecer como experiência se forem vistos fora dos cinemas. E hoje os filmes são consumidos não só na TV como também pelos computadores, tablets e celulares (!). E aí, como ficamos?

Com todas essas revoluções técnicas e tecnológicas, parece que é muito mais cômodo ficar em frente à TV ou com seus fones de ouvido e o celular na mão. O que não se percebe é que há experiências diversas e que nem sempre podemos trocar uma pela outra, pelo simples fato de que algumas são únicas. Um disco não substitui um concerto e um filme rodado em iMax não foi feito pra ser visto no celular. Entre qualidade e facilidade, ficamos com ambos, dependendo da ocasião.

Thainá Reinert 2
Modelo: Thainá Reinert

E o teatro fica onde nessa história? E a dança? Embora tantas formas de arte surjam enquanto outras se transformam, ainda não houve o que substituísse o palco de um teatro e a experiência que se tem ao estar na plateia. Contudo, ainda há aquele estigma de que teatro é pra gente rica e vai ser consumido pelas elites. Mesmo que se paguem dez reais para entrar na apresentação de uma peça, o próprio ambiente é elitizado e afasta as pessoas. Fora o sem-número de pessoas que afirma não entender um espetáculo de dança.

O negócio é que não precisa ser assim. Assim como no decorrer da história a música se popularizou – porque, sim, música de qualidade também era coisa elitizada –, é preciso que o mesmo aconteça com o teatro. Nosso teatro trata de temas controversos e importantes e precisa ter seu espaço também. De nenhuma outra forma artista e público estão tão próximos – exceção feita à cena da música underground, da qual também somos parte e fazemos a coisa acontecer. Enquanto artistas, criamos vida e realidade no palco; enquanto público, recebemos beleza, nos chocamos, choramos, rimos e levamos um tanto daquilo pra casa.

O lance aqui é então levar o teatro para a rua. Fazer a experiência acontecer. Se a maneira de se consumir arte já passou por tantas revoluções, talvez agora seja a nossa vez. E talvez algo já esteja acontecendo. Comecemos nossa guerrilha. Nós vamos dançar nossa revolução. Você estará lá?

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