Radiohead – Corações partidos fazem chover

Adiei o quanto pude o momento de escrever este texto. E não é porque eu não o quisesse escrever ou algo assim. É simplesmente porque me faltam palavras. Elas me escapam e nem sempre voltam para que o texto possa nascer.

Acho que, além ou talvez acima disso, haja um outro fator. Um apesar de. É isso. Esse é um texto apesar de.

Apesar de eu ter me proposto escrever uma resenha do show do Radiohead no Soundhearts Festival, em São Paulo. Apesar de também querer escrever sobre Aldo the Band (que acabei não conseguindo ver), Junun (uma grata surpresa) e Flying Lotus (que infelizmente não me tocou). Apesar de eu tentar manter um distanciamento e registrar realmente uma análise do show. Apesar de eu mal ter conseguido tirar fotos para ilustrar este texto.

Não. Eu não consigo apenas escrever uma resenha de um evento do qual o Radiohead foi headline. Então, este texto não é um texto: é uma declaração de amor.

O Radiohead é a maior banda do mundo. Não porque venda zilhões de discos ou seja conhecida por todas as pessoas de todas as classes sociais, nem porque Thom Yorke seja abordado na rua por fãs enlouquecidos que querem um pedacinho dele. O Radiohead é a maior banda do mundo porque essa é a minha relação com eles. Não há aqui nenhuma pretensão de dizer que eles são maiores ou melhores que ninguém. Eles simplesmente são o que são para mim e isso me basta.

Essa relação pessoalíssima com a música é o que nos diferencia enquanto amantes de uma das formas de arte mais consumidas dentre todas. E o que eu estava vendo ali, no palco montado no Allianz Parque, era a minha vida em forma de música.Radiohead

Quando o show começou, com alguns acordes de “Treefingers” seguidos de “Daydreaming”, junto com uma pequena cachoeira de lágrimas que insistiam em cair em meio a uma beleza absurda de luzes explodindo do palco, veio à minha cabeça a primeira vez que ouvi “Planet Telex”, 20 anos atrás, numa loja de CDs da minha pequena cidade, pensando como era possível aquela música existir. Foi o início de tudo pra mim. Foi o momento em que abandonei todos os radicalismos em relação à música. Foi o momento em que entendi o que era arte.

Sim, porque quem me ensinou que o rock também era arte não foram os Beatles, mas a banda responsável por gravar o Sgt. Peppers da minha geração: Ok Computer não é apenas um disco genial e a gente pode ter até uma relação mais próxima com outro disco do Radiohead, mas ele é o disco mais importante dos anos 90, além de definir muito do que viria a ser feito depois. Muitas bandas com certeza nem existiriam se não fosse por esse disco. E talvez eu não estivesse aqui contando essa história, depois de 20 anos ouvindo essa banda e esperando para vê-los ao vivo (já que não pude ir no show de 2009).

Kid A talvez seja o disco que eu mais ouvi na vida. Era a banda mostrando que tinha coragem de abandonar as guitarras e mudar tudo, assumindo seu lugar no novo milênio e ocupando seu posto entre as grandes bandas da história, sabendo que não poderia superar sua obra anterior. Ouvir “Everything in its right place” e “Idioteque” ao vivo foi outra experiência singular, impossível de descrever. A única coisa de que me lembro é do ar saindo de meus pulmões enquanto cantava, explodindo ao mesmo tempo em que eu me voltava para dentro de mim.

É isso que uma banda de verdade faz. Nos toca. Nos faz ao menos tentar entender um pouco quem somos. “Pyramid song”, do controverso Amnesiac, me ensinou que em algum momento não haveria nada a temer nem nada de que duvidar. Registrada pela primeira vez no EP I might be wrong e regravada em A moon shaped pool em homenagem a Rachel Owens, ex-esposa de Thom Yorke, falecida em 2016, “True love waits” mostra a delicadeza que uma canção pode alcançar. Pena não ter feito parte do set do show de São Paulo. Mas faz parte da vida de muita gente que estava lá, tenho certeza.

Radiohead 3

E isso é apenas uma parte minúscula do que é o Radiohead. Ok Computer mudou a história da música. In rainbows mudou a indústria musical, dando ao fã a escolha de pagar quanto quisesse. E ainda trazia uma das letras mais bonitas da história da banda (“All I Need”). Hail to the thief mostrou uma banda politizada, num disco talvez irregular, mas com grandes canções como “2 + 2 =5” e “Myxomatosis”. Tudo que precisamos fazer é prestar atenção. Tudo isso apenas para mostrar que o Radiohead é uma banda completa. Tudo isso para dizer que o show era a história acontecendo. Duas horas e vinte. Faltaram muitas músicas. E não faltou nada. Queria ter ouvido “The Bends”, “Karma Police”, “Climbing up the walls”… Mas ouvi “My iron lung”, “Paranoid Android”, “Weird fishes/Arpeggi”. Teve “Exit Music” e “Fake plastic trees”. Queria muitas mais. Mas todas que foram tocadas foram perfeitas. “Identikit”, do último disco, estava lá, para mostrar que o Radiohead não deve nada a seu próprio legado.

radiohead paranoid android

O show poderia ter três horas que ninguém reclamaria. Não sabemos se eles vão voltar. Se voltarem, haverá lágrimas e gritos a plenos pulmões. Se não voltarem, a história está contada. E o Radiohead inscreveu seu nome de todas as formas: em seus discos, em nossas memórias, nas gotas de chuva que caem de todos os corações partidos.

3 comentários em “Radiohead – Corações partidos fazem chover

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