Citizen – Como você se sente sendo o que se tornou?

Num ano em que teremos diversos shows importantes no cenário post-hardcore no Brasil, o Citizen fez uma apresentação extremamente competente, mostrando a força das bandas que vêm surgindo nos últimos tempos. É uma banda relativamente nova, com três álbuns apenas, tendo lançado seu debut, Youth, há apenas cinco anos. Durante todo o show, uma coisa que me veio à mente é o poder da canção, uma vez que se trata de uma banda que explora bastante sua força melódica, aliada a letras que denotam a sensibilidade própria dessa mistura entre hardcore, indie e emo.

A abertura ficou por conta do Vistas, de Florianópolis, e do Black Days, de São Paulo. Os catarinenses abriram a tarde com um som enérgico, misturando um som grunge/hardcore com uma melodia ora celta ora folk, criada pela fusão entre as guitarras e instrumentos pouco usuais, como flauta e gaita. Além de sons próprios, mandaram um cover do Nirvana (“School”) e um do Basement (“Whole”) – esta última aquecendo o ainda pequeno público para o que viria a seguir.

Black Days Citizen
Black Days

Já o Black Days, mais conhecido de boa parte do público, mostrou a energia de sempre para um público um pouco maior mas um tanto contido, que parecia desconectado da energia da banda, que mostrou a presença de sempre, em canções inteligentes e com letras que mostram consonância com o mundo moderno. Destaque para “Vida que segue” e a ideia de que “haverá outro lugar onde a gente possa ser de verdade” – pra mim, a mais inspirada da noite que estava começando.

E então foi a vez do Citizen. A banda é, no palco, bastante fiel ao que está registrado nos discos – e isso talvez seja sua grande vantagem. Suas canções são seu maior trunfo e isso mostra o que essa cena underground realmente representa. Não há necessidade de malabarismos cenográficos, trocas de roupas entre as músicas e grandes recursos de pirotecnia quando o verdadeiro poder vem das caixas de som.

Em sua primeira turnê na América do Sul, o Citizen soube dosar sua apresentação com músicas de seus três álbuns, mostrando uma diversidade interessantíssima nas composições, que vão do peso de “Roam the Room”, que abriu o show, ao indie declarado de “In the middle of it all”, com sua letra sagaz sobre o vazio da vida, e à viagem introspectiva de “Sleep”.

“Drown”, registrada no EP Young States, foi um afago no coração dos fãs, com sua crueza melódica, tão característica do estágio inicial de uma banda. Não é exagero dizer que os anos que separam Young States de As you please, último lançamento da banda, fizeram muito bem ao Citizen, criando uma identidade própria e mostrando o quão grandes eles podem ser.

Citizen

De certa forma, é muito bom que esse cenário post-hardcore permaneça onde está, com cada vez mais bandas vindo para o Brasil mas ainda em lugares pequenos, em que os fãs possam se sentir próximos à banda e próximos uns aos outros, chorando juntos quando for pra chorar e pogando quando for a hora do mosh. Pra ficar apenas em alguns nomes, ano passado tivermos Basement, Tigers Jaw, Turnover e os caras da velha guarda do The Get Up Kids; esse ano teremos Thrice, Flatliners, Quicksand, Circa Survive e At The Drive-In. É um excelente momento pra ser emo ou qualquer outra coisa que possa nomear esse tipo de som que tanto nos envolve.

No meio disso tudo, o Citizen prova como o sentimento na música não morreu, fazendo um som autêntico, que leva tanta gente a cantar junto e a acreditar naquilo que está sendo dito. Quando a banda anunciou “uma música do primeiro disco” e começou a tocar “Sleep”, a comoção era geral, com todo mundo cantando com toda a força o refrão “Do you sleep anymore”, contrariando a letra que diz “And I would love to feel alive again, but I guess that can wait”. Não, naquele momento ninguém podia esperar: era o momento de se sentir vivo, e todos sabiam disso.

E, pelo visto, a banda percebeu o envolvimento do público. Ao fim do show, depois de o público clamar por “one more song” e de alguns já estarem saindo do Fabrique, a banda volta para tocar “How does it feel”, fechando o show da maneira como começou: com a dose certa de peso e sensibilidade. O que mais poderíamos querer?

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