Amor e ódio ao corpo

Screenshot_20180507-2117042018. Matheus Passarelli. Matheusa. Negro. Periférico. Ativista LGBT. Assassinado e queimado no Rio de Janeiro.

2018. Marielle Franco. Mulher. Negra. Periférica. Ativista política. Assassinada a tiros no Rio de Janeiro.

1997.Galdino Jesus dos Santos. Índio pataxó. Ativista político. Queimado vivo num ponto de ônibus em Brasília.

Eu poderia nomear muitas Marielles, Matheus e Galdinos, por anos e anos, sobrevivendo desde 1500, Brasil afora. Mas não teríamos tanto espaço para isso. Fato é que vivemos, desde o “descobrimento”, uma batalha direcionada ao corpo, ao controle absoluto dele, visto que o próprio processo de miscigenação do nosso povo não foi pacífico. Afinal, o Brasil nasceu do estupro. Nasceu da violação dos corpos indígenas e africanos.

Em 2018, vemos o crescimento vertiginoso do fundamentalismo no país e, novamente, para um regime fundamentalista se instalar, todo controle moral e social é exercido através do corpo. Em meio a um sistema racista e colorista, parece difícil conseguirmos presenciar o não hegemônico coexistindo com o hegemônico. O espaço social é majoritariamente branco, heterossexual e intolerante às diferenças. Estas são silenciadas. Exterminadas. Queimadas.

IScreenshot_20180507-211324sso se dá também porque, de acordo com a filósofa Marcia Tiburi, “ansiosa e taxativa, a identificação nos leva a confundir o Outro com o mal. E, se o mal é o que deve ser extirpado, exorcizado, esquecido e apagado, não resta muito ao Outro”. Logo, cada época produz seu Outro – o corpo a ser odiado e banido como se fosse o mal. O bárbaro. O judeu. O indígena. O negro. O periférico. O gay. O trans.

Existem grupos sociais, por exemplo, que nunca puderam parar de falar sobre o corpo, porque nunca pararam de ser violentados. Nunca vivemos, portanto, um momento de adoração ao corpo. Pelo contrário, vivemos uma padronização do corpo para a imposição desse poder opressor e discriminatório.  Foucault nomeou tudo isso de biopoder, governo que age sobre a vida e faz da vida um fato político. Dessa maneira, a “velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano” será agora recoberta pela “administração dos corpos [poder disciplinar] e pela gestão calculista da vida”.

Então esta é a realidade esquizofrênica do nosso país: o fascismo cresce porque a diversidade de corpos se expõe mais. Somos o país que mais consome pornografia trans no mundo. Em contrapartida, somos o país que mais mata trans no mundo. A diversidade de corpos existe, mas não convive; assim, o poder se mantém nas mãos da unicidade e não da multiplicidade.

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E seguimos contando nossos mortos, buscando alguma lucidez em tempos tão obscuros (já estiveram realmente iluminados?). Abrimos valas e empilhamos corpos. Encaramos os microfascismos do dia a dia. Mas ainda estou aqui e sou. Ou não sou porque ainda estou aqui? Eu amanhã posso ser o Outro. Você amanhã pode ser o Outro. Executado. Execrado. Abominado. Odiado. Um corpo que ousou ser diferente. Um corpo que ousou fazer a diferença.

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