Deus é mulher – e pode chamar de Elza Soares

Deus é mulher. Esse é o título do disco mais relevante de 2018 até agora. Talvez não seja superado por outro. Se você ainda não ouviu falar desse disco, lançado na última sexta-feira, e se já passeou pelas páginas aqui da revista, deve estar pensando tratar-se de um disco de hardcore ou coisa que o valha – afinal, esse é um dos nossos assuntos principais. Mas não. Esse é o título do novo álbum de Elza Soares. E repito: é o disco mais relevante do ano, por conta da sonoridade, por conta das letras, por conta do engajamento.

Elza Soares – sambista, mulher, negra, de origem pobre – está com 81 anos. Poderia estar em casa, descansando, correndo o risco de ser esquecida. Ou poderia gravar um disco aqui, outro ali, simplesmente para não deixar seu nome morrer. Porém, faz questão de trazer sua história para o contexto atual e gravar um disco em que ela prova que tem algo a dizer. A cantora já havia voltado à mídia com seu disco anterior, A mulher do fim do mundo, de 2015, que ganhou diversos prêmios, entre os quais o Grammy Latino. Depois disso, em 2017, Elza e Pitty lançam a parceria “Na pele”. A menção a essa música é superimportante aqui porque, em seu disco de 2015, Elza ressurge aberta a novas sonoridades, aproximando-se de compositores jovens e se mostrando próxima a uma nova geração de ouvintes, o que só se confirma quando acontece sua parceria com a cantora baiana. Além disso, as temáticas femininas e feministas estão presentes na obra de ambas, mostrando uma consonância tanto no discurso quanto na música.

Elza

O álbum Deus é mulher reafirma esse novo caminho de Elza Soares, à semelhança do que Caetano Veloso havia feito na trilogia , Zii e zie e Abraçaço. Ao se cercar de músicos mais jovens – como o já conhecido Pedro Luís –, a cantora carioca parece se sentir bem à vontade para explorar tanto a sonoridade de guitarras quanto as experimentações com a música eletrônica e com o funk.

Provocativo desde o título – afinal, mexer com a imagem de Deus nesse momento cristão ultraconservador e reacionário que vivemos é cutucar um vespeiro –, o disco abre com a faixa “O que se cala”. Genial desde a batida inicial, com seu gosto africano misturado a uma linha de funk, a melodia emoldura versos que entregam a essência do que hoje é o trabalho de Elza: “Mil nações moldaram minha cara, minha voz uso pra dizer o que se cala, o meu país é meu lugar de fala”. Ao usar uma expressão tão cara às minorias engajadas, a cantora desconstrói o termo “lugar de fala” e, ao mesmo tempo em que assume sua própria voz, lança um discurso que se mostra contra a opressão e a favor da igualdade, distanciando-se dos vários discursos de ódio presentes por aí.

A ótima “Exu nas escolas” continua a valorização da cultura afro-brasileira, numa parceria com o rapper Edgar que culmina numa crítica certeira à educação no Brasil ou à falta dela, considerando tudo aquilo que não se ensina devido à limitação de um currículo montado de acordo com escolhas histórica que excluem os que foram eternamente calados.

A partir de “Banho”, a temática feminina se faz presente e, nessa música, é enriquecida com a participação do coletivo Ilú Obá de Min. Popular, africana, mulher. Desbocada e direta. Séria e divertida. Essa é a Elza Soares que se desenvolve no disco, entre a leveza de “Eu quero comer você” e o lirismo denso de “Língua Solta”, passando pela modernização do samba em “Hienas na TV”. Elza não é uma cantora qualquer. Elza tem uma história para contar. E Elza é a cantora de que o Brasil precisa. Elza tem a força necessária e canta sua própria força e a de tantas outras mulheres em “Dentro de cada um”.

Elza 3

Elza canta o deus e a deusa que há dentro de cada um. Esse deus que é diferente para todos e que prescinde de doutrinações – atacadas pela cantora em “Credo”. Esse deus que há de ser mulher e que há de ser mãe. E que com certeza está na voz de Elza Soares.

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