“Holocausto Brasileiro” – Nos porões da loucura

O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Neste livro, Daniela Arbex devolve nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registrados como ‘Ignorados de tal’. Eram um não ser.

(Eliane Brum, prefácio do livro “Holocausto Brasileiro”)

É pela busca da verdade e da sensibilização do humano que Daniela Arbex apresenta, com seu livro-reportagem Holocausto Brasileiro, uma colcha de retalhos documental do que aconteceu no Hospital Colônia de Barbacena – entre 1930 e 1980. Por meio de entrevistas com sobreviventes, parentes de pacientes, funcionários e ex-funcionários, ela entrelaça memórias e histórias, desnudando um dos capítulos mais trágicos da história do Brasil.

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60 mil mortos. 70% dos mortos não apresentavam qualquer doença psiquiátrica. Um genocídio no maior hospício do Brasil. Daniela nos apresenta Josés, Marias, Pedros, Paulos, Terezas, filhos, filhas, pais, mães, esposas. Pessoas. Chegavam ao Hospital da mesma forma que os judeus chegavam aos campos de concentração nazistas: De trem, mais conhecido como “trem de doido”. Traziam consigo o que lhes restava de humanidade, pois, apesar do medo, ainda eram feitos de sonhos.

Os pacientes, em sua maioria internados à força, foram submetidos à tortura, à fome, ao frio, a doenças, à morte. Seus cadáveres eram vendidos para as faculdades de medicina (sim, a morte deu muito lucro! Só a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – adquiriu 543 corpos em uma década). Essas pessoas foram despejadas ali e condenadas à morte porque alguém as declarou “loucas”. Nas palavras da jornalista, ” eram vítimas da loucura dos normais”.

Uma das funcionárias da cozinha e outras vinte mulheres foram sorteadas para realizar uma sessão de choque nos pacientes masculinos do pavilhão escolhidos aleatoriamente. Uma colega cortou um pedaço do cobertor, encheu a boca do paciente, que a esta hora já estava amarrado na cama, molhou a testa dele e começou o procedimento. Contou mentalmente um, dois, três e aproximou os eletrodos das têmporas de sua cobaia sem nenhum tipo de anestesia. Ligou a engenhoca na voltagem 110 e após nova contagem, 120 de carga. O coração da jovem vítima não resistiu. O paciente morreu ali mesmo de parada cardíaca, na frente de todos. […] “Menos um.” pensou o guarda a fazer o serviço de retirar o corpo.

(trecho do livro “Holocausto Brasileiro”)

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Foto de Luiz Alfredo (1961)

O livro é não apenas um manifesto a favor da vida e da empatia, mas também um multiplicador e provocador de reflexões no decorrer de suas 272 páginas. Afinal, histórias como essas não podem se repetir. Por isso, é um grito de desabafo e denúncia de todo o sofrimento pelo qual essas pessoas passaram ao serem depositadas e abandonadas nos porões da loucura.

Dessa forma, Daniela Arbex não nos permite esquecer que medidas extremas, as quais cerceiam a nossa liberdade de ir e vir, pautadas em tortura e desrespeito à vida, são crimes contra os direitos humanos e precisam ser denunciadas. Não podemos nos silenciar.

Mais do que tudo: Não podemos nos desumanizar.

 

 

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