A sucessão de equívocos de 13 reasons why

Apesar de muita gente já estar falando sobre isso, não dá pra deixar de lado: precisamos falar sobre a 2ª temporada de 13 reasons why.

A grande questão que ficou quando a primeira temporada acabou no ano passado foi justamente sobre a necessidade de haver uma segunda. Temos dois problemas aqui. A série foi baseada no livro homônimo e, por isso, seu assunto estaria esgotado depois de seus 13 episódios iniciais. Além disso, há a exposição deliberada do suicídio da protagonista Hannah Baker, que pode ser vista como um gatilho para uma possível audiência – problema este muito maior, visto que o universo da série é muito próximo da realidade de seu público-alvo. Considerando esses fatores, e para além de uma necessária discussão sobre suicídio, a série poderia surtir um efeito oposto ao desejado pelos seus criadores.

Nessa temporada, vemos a Liberty High respondendo a um processo sobre sua culpabilização no suicídio de Hannah. Sabemos que a escola se omitiu e foi acusada nas fitas deixadas pela protagonista. Porém, tanto a instituição como praticamente todos os envolvidos se negam a reconhecer sua parcela de culpa. Até aí, tudo bem, uma vez que os criadores seguiram talvez o único caminho possível para dar prosseguimento à história. Depois disso, fica difícil encontrar um acerto.

13rw2Apesar das controvérsias envolvendo principalmente as cenas do estupro e do suicídio de Hannah, a primeira temporada apresentou uma narrativa que, se não era perfeita, ao menos era bem amarrada. A segunda temporada, nem isso. Me pareceu realmente que os roteiristas não tinham onde se apoiar e criaram um dramalhão de tribunal envolvendo adolescentes. Tendo sido esse o caminho lógico a seguir, o mínimo a se esperar era que a ideia do julgamento fosse bem desenvolvida, e não transformada numa bobagem de fim previsível. Foi um excelente exemplo de como estragar um material que poderia ser genial. A narrativa invariavelmente se perde ao ser construída por meio de flashbacks que só com muita boa vontade se encaixam na história e no perfil da Hannah Baker apresentada na primeira temporada.

E se você acha que apenas essas rememorações são o suficiente para termos a presença de Katherine Langford na tela, engana-se: Hannah volta o tempo todo como uma espécie de fantasma com quem Clay conversa e interage normalmente. Metaforicamente, seria uma saída válida, já que o rapaz se considera culpado por não ter impedido a morte de Hannah. Só que ele fala o tempo todo com o fantasma, chegando a gritar e ninguém nunca percebe, numa licença narrativa absurda. Além disso, Justin retorna e fica uma semana no quarto de Clay em crise de abstinência, também passando despercebido. Se fosse bem feito, seria quase surrealista. Da maneira como se constrói, é inverossímil mesmo.

Os outros personagens nos apresentam mais do mesmo. Bryce continua sendo o vilão que vai sair impune por ser rico; Zach é o cara bonzinho que está no ninho de cobras do time de beisebol; Tony é o briguento que acaba ajudando todo mundo; Clay é Clay. Os mais interessantes acabam sendo Jess, que precisa conviver diariamente com as consequências da violência que sofreu, embora careça de uma atuação mais convincente, e Alex, que sobrevive à sua tentativa de suicídio no fim da primeira temporada e precisa recuperar as memórias que perdeu.

O detalhe é que isso não é suficiente pra se construir uma série. Ainda mais com novos 13 episódios. Então nós, inocentes espectadores, esperamos: ah, mas a série tem um objetivo maior, discutindo problemas sérios pelos quais adolescentes sempre passam. E estamos errados ao esperar por isso, já que a série trata tudo da pior maneira possível. Como disse, Bryce sai impune por ser rico enquanto Justin é preso porque é pobre. As meninas que foram violentadas acabam tendo de continuar, ao menos por um tempo, convivendo com seu estuprador e com a cultura do estupro, banalizada na escola. O conselheiro Kevin Porter assume a culpa – que é também da escola – e é demitido. Nada do que os jovens fazem traz resultado, então a lição a se tirar da série é a impotência diante do mundo.

13rw3Mas o pior ainda estava por vir. Tyler, a maior vítima de bullying da escola, tenta dar a volta por cima mas acaba sofrendo a maior de todas as violências mostradas nessa temporada, de uma maneira desnecessariamente explícita – aos moldes do suicídio de Hannah. Qual a solução? Entrar armado no baile da escola para se vingar. O agravante aqui é que a série não acontece num ambiente de fantasia e nem está envolta pela aura de arte que justificaria a violência como em certas produções cinematográficas. Ela acontece num ambiente muito próximo do real e apresenta essa vingança como única solução. E isso num ano em que o número de tiroteios em escolas dos EUA bateu o mais indesejado dos recordes.

Ao tentar se livrar da culpa pela morte de Hannah, Clay decide ir sozinho enfrentar Tyler, impede os amigos de chamarem a polícia e ainda convence Tony a dar fuga ao garoto. Tudo que não se deve fazer. Conclusão: 13 reasons why se tornou uma grande coleção de erros e de soluções infelizes escolhidas pelos roteiristas. Precisamos, sim, tratar dos assuntos abordados na série, mas um quê de responsabilidade não faz mal a ninguém. Apesar dos diversos ganchos deixados, seria melhor evitar os novos equívocos de uma terceira temporada.

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