menores atos – se é pra doer, que seja

Estávamos há tempos esperando o lançamento do disco novo do menores atos e finalmente ele chegou. O que não esperávamos era que lapso fosse um disco assim tão arrebatador. Claro que já sabíamos da qualidade do trabalho dos caras, mas não dava pra imaginar que o nível seria tão absurdamente bom. Não tem sequer uma música mais ou menos. Não tem uma linha fora de lugar. Não tem nada faltando. Não tem uma música que poderia ficar de fora. Todas se encaixam no conceito da banda e do álbum.

Já começamos ouvindo a frase: “Lembre-se de mim. – sussurra o pó. – Sou o que restou, o que sobrou de um acidente, um passo em falso um erro.” Nesse momento, nossos corações já entram em parafuso. Acomodada em uma melodia com o peso certo e já característico da produção da banda, a letra com um quê de século XIX (“Mas só existe o tédio, não há nada a fazer enquanto o seu remédio faz efeito em você”) determina o clima que permeará as canções.

“No espelho”, com uma linha vocal e uma melodia meio anos 80, traz uma frase que resume o sentimento de ouvir menores atos: “se é pra doer, que seja”. É bem isso. Ouvir menores atos parece nos levar a um outro nível de sensibilidade, em que todas as dores afloram, conduzindo-nos a uma viagem interior na qual perpassamos diversos momentos da nossa própria vida. É aí que reside o poder da banda.

As já conhecidas “Amanhã” e “Devagar” – lançadas antes como singles – aparecem em sequência. A primeira entra tranquilamente no rol de obras-primas da banda, intensificando a viagem iniciada em “No espelho”. Os versos sobre a necessidade de solidão que todos nós já sentimos em algum momento também nos ajudam a lidar com os passos que damos nessa vida e com a necessidade de cuidar de nós. Precisamos às vezes abandonar a pressa, já cantada pelo menores atos. São as diferentes maneiras que cada um tem de se entender e de conviver consigo mesmo.

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Foto: Fernando Valle

Depois de um pequeno “Interlúdio”, uma das melhores faixas do disco (tarefa difícil escolher qual a melhor): “O que te trouxe até aqui”. Impossível não pensar no que nos trouxe até aqui, até esse momento que vivemos. Somos isso. Somos um apanhado maluco de vivências e histórias. Somos nossas memórias e nossas pequenas mortes. “Hoje eu morri por dentro, mas amanhã eu volto a rir”. Não podemos mudar o que foi feito – e isso é absolutamente desnecessário. Nossos erros, nossos acertos, nossas dores e nossos sorrisos fazem parte de quem somos e de tudo que nos trouxe até aqui, mesmo que queiramos “dormir e acordar em outro lugar”.

“Karate” tem o título e a melodia mais peculiares do disco. A voz calma do Cyro cantando: “Sorte que a gente amou mais que errou” cria a cama para uma estrutura narrativa inicial fantástica, em que as imagens introduzem um diálogo reflexivo com o qual é impossível não se identificar. Consegui imaginar até um clipe ao ouvir a música já pela primeira vez.

Outra coisa que chama a atenção é a organização do disco. A última frase de “Karate” (“E a gente vai lembrar de tudo que não fez”) parece encaixar perfeitamente na primeira de “Labirinto” (“Você não é quem quer preso nesse labirinto”). Se o labirinto são nossas lembranças, novamente o passado nos forma, mas podemos criar nosso futuro. Nossas histórias nos formam, mas podemos criar novas. Dói, mas passa, como diz a letra de “Miopia” – a mais delicada do disco. Se você não se emocionar com isso, meu amigo… me desculpe, mas você morreu.

As dores cantadas aqui são necessárias. Afinal, “pra cada vida uma dor”. É preciso se sentir vivo. É preciso saber que em algum momento “nada faz sentido”. Continuamos, “sem desistir nem tentar”. A lembrança de “Por enquanto”, da Legião, é inevitável ao ouvir esses versos de “Quando você for”, remetendo à mesma ideia de impassibilidade diante da mudança. Algo mudou – o teto desabou e não nos resta nada a fazer, a não ser ouvir a última música – “Contramão” – e gritar. Gritar a plenos pulmões que “EU NÃO QUERO MAIS, JÁ CANSEI, NÃO VOU MAIS FICAR, EU NÃO QUERO TER RAZÃO”. E está tudo bem. Seguimos nessa ou noutra direção. Às vezes, só temos nossos gritos. Às vezes, só temos nosso silêncio.

Depois de ouvir um disco desses, a gente pensa em como faz falta haver mais bandas como o menores atos, ao mesmo tempo em que sabemos que bandas assim são únicas. Enquanto queremos que todos ouçam, também queremos guardar essa banda só pra gente, com aquele carinho que só quem ama a música e a arte entende. Pra quem fala que não existe música boa no Brasil hoje, esse disco é uma bela dica pra se largar o saudosismo de lado e ouvir uma das melhores coisas do mundo. Tem muito sofrimento nas letras sim, mas também tem muita sensibilidade – uma coisa que falta nesse tempo tão bruto que vivemos. Sinto hoje com menores atos o que senti tantas vezes na vida como fã de Legião. Talvez, seja a melhor maneira de nos tratarmos bem.

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