João Rock: Música e política

Vivi nesse sábado (09) a maior versão do festival plenamente brasileiro João Rock, na cidade de Ribeirão Preto. Contando com um público de cerca de 60 mil pessoas e composto por quatro palcos, 24 shows e mais de 10 horas de música, a 17ª edição do festival teve caráter militante e político, já que boa parte dos artistas que participavam abriam um espaço em seus shows para denunciar a realidade catastrófica do país e para gritar o famigerado “Fora Temer”.

Começo minha empreitada pelo show do Raimundos, que mostrou sua energia rock’n’roll com clássicos como “Nega Jurema”, “Mulher de Fases” e “A Mais Pedida”. O show contou com vários protestos políticos, como a frase “Precisamos acabar com essas velhas raposas da política brasileira”, dita por Digão antes de pedir para o público abrir uma roda, inclusive na área vip, e mandar “Esporrei na Manivela”. O show também contou com um momento emocionante de homenagem ao cantor Chorão e ao baixista Champignon, com um cover de “Lugar ao Sol”, do Charlie Brown Jr.

Logo depois, Pitty retorna aos palcos depois de meses ausente com um show memorável, com a energia de sempre. A cantora surpreendeu também ao estrear ao vivo “Contramão”, seu novo single, lançado na última terça-feira (05), com a participação especial de Tássia Reis e Emmily Barreto. Pitty representou em seu show e no contexto geral do festival, a presença feminina e sua exponência na atualidade.

João Rock IIINesse momento, começa no palco Tropicália 50 anos uma sequência de shows que mostrariam uma parte importante da cultura e da história da música tupiniquim. É o palco mais representativo do evento, recebendo os Mutantes, em sua nova formação; Refavela 40, composto por Gilberto Gil (que foi simplesmente incrível), Moreno Veloso, Anelis Assumpção, Chiara Civello, Bem Gil e Mestrinho; Ofertório – projeto de Caetano Veloso, Moreno, Zeca e Tom Veloso; e, por fim, Tom Zé, que infelizmente não pude assistir por conta da simultaneidade com a apresentação de Criolo.

Foram tantos shows nesse palco lindo, montado em homenagearam à Tropicália e trazendo sua representação histórica no período da ditadura militar ao celebrar os 50 anos do movimento. Começando com Os Mutantes, que apresentaram clássicos como “A Minha Menina” e “Panis et Circenses”, com direito a seu momento de protesto, em que o vocalista e  guitarrista Sérgio Dias – único remanescente do trio original – também criticou Michel Temer, pedindo para o presidente um pouco de dignidade para o povo.

O projeto Refavela 40, com Gilberto Gil aparecendo só no fim, emocionou a todos, em um show com a proposta tropicalista de unir tribos, culturas, gêneros musicais e regionalismo brasileiro.

A minha experiência não poderia ter sido mais bem arrematada do que com os shows de Gabriel, o Pensador e de Criolo. Sem contar que o show do Planet Hemp me surpreendeu completamente, desde a presença de palco de Marcelo D2, até  a música “Legalize Já” e a diversão dos moshs. Além disso, Marcelo D2 falou sobre o recente caso de racismo na PUC-RJ, sobre violência e sobre intervenção militar. “Não é possível que em 2018 tenha gente querendo votar em Bolsonaro,” disse, deliberadamente. Depois, com a imagem de Marielle Franco no telão, BNegão citou o nome da ex-vereadora, e também de Anderson e Amarildo.

joc3a3o-rock-vi.pngCriolo, por sua vez, fez um show emocionante, mais voltado ao rap do que ao samba, por conta do lançamento de 2017, Espiral de Ilusão. O cantor chorou ao apresentar sua canção mais popular, “Não existe amor em SP”, arrancando aplausos dos fãs.

Por fim, tirei dessa experiência o quanto a cultura nacional é rica e multifacetada, pois apesar de ser um evento de rock, o festival trouxe inúmeros gêneros musicais para mostrar que o Brasil tem gente boa em todo lugar, cuja arte só precisa ser mais valorizada. Por também ter ido ao Lollapalooza esse ano, eu pude pensar em certas comparações e posso dizer que – pasmem – eu gostei mais do João Rock porque, além de ser mais acessível ao público, os artistas vestiram a responsabilidade social que a cultura deve ter em momentos de crise política, golpe e de possível afronta à democracia. Por isso, para mim, ele foi mais do que um simples festival.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: