Filmes de amor rasgados para um dia qualquer

Feliz é a inocente vestal / Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida / Brilho eterno de uma mente sem lembranças / Toda prece é ouvida, toda graça se alcança” – Alexander Pope

Os poetas e cantores sempre nos quiseram fazer acreditar naquele amor lindo e ideal que julgamos ser tudo de que precisamos na vida. Sabe quem mais nos fez acreditar nisso? Hollywood. Mas nem só de histórias de amor perfeitas vive o cinema. Também tem aqueles filmes, independentes em sua maioria, que nos mostram que o amor é muito mais duro e muito mais difícil do que nos fizeram acreditar. Filmes que, quando terminamos, parecem cravar uma faca em nosso coração e ainda torcer bem de leve pra gente sangrar um pouquinho mais. Se você estiver preparado pra isso, dá uma olhada nessa lista:

6. Ruby Sparks: a namorada perfeita – Disfarçado de comédia romântica, esse filme é na verdade uma das metáforas mais doloridas sobre a invenção do amor e sobre como a necessidade de controle de uma pessoa em relação à outra pode ferir. Calvin Weir-Fields (Paul Dano) é um jovem escritor em crise criativa e com a vida amorosa em frangalhos, que, ao iniciar um novo livro a partir de um sonho recorrente, descobre ter dado vida a sua personagem: Ruby Sparks (vivida por Zoe Kazan, que também roteirizou). “Elas não estão interessadas em mim, apenas na ideia que fazem de mim”. Essa frase, dita pelo protagonista sobre suas fãs, se encaixa perfeitamente no que ele faz com Ruby. Zoe Kazan, assim como em outros filmes, encarna a manic pixie dream girl – personagem feminina que surge para suprir a idealização feita pela mente egótica do homem. Porém, numa interpretação que aos poucos se torna arrebatadora, ela personifica a vítima de um relacionamento doentio. Apesar de uma possível esperança ter despontado no final, o que fica é a dureza das palavras de Ruby a Calvin, ao descobrir-se controlada por ele: se aquilo era o que ele entendia por um relacionamento, seu destino seria ficar só.

5. Dois lados do amor (The disappearance of Eleanor Rigby – Them) – Temáticas à parte, um filme com Jessica Chastain e James McAvoy jamais poderia dar errado. O longa faz parte de um projeto ambicioso do diretor e roteirista Ned Benson, que filmou a mesma história sob o ponto de vista de Eleanor (em Her) e de Conor (em Him), e juntou ambas neste Them. No início da narrativa já sabemos que se trata aqui de um casal cujo relacionamento se quebrou e que cada um deles lida de maneira diferente com isso. A causa do esfacelamento da relação é revelada depois, mas o que importa é que ambos estão passando pela maior de todas as dores e isso é o que os faz ser mais humanos. É preciso, afinal, ser demasiado humano para sentir tanto. Nas palavras de Conor, “só tem um coração nesse corpo”. Mas não há como ter cuidado com ele o tempo todo, pois o controle sobre a vida escapa de nós e nos deparamos com pequenas e grandes tragédias que podem mudar o curso de tudo, fazendo-nos por vezes, como diz o título original, desaparecer.

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4. Um dia – Baseado no livro homônimo de David Nicholls, o filme acompanha a vida dos amigos Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), desde 1988, quando a amizade entre eles começa, até 2006, retratando sempre o dia 15 de julho. Poderia ser o clichê da garota que se apaixona pelo melhor amigo, mas vai muito além disso. Ambos são construídos de forma antagônica e justamente por isso complementar. Enquanto Emma é a escritora talentosa que trabalha enfiada em um restaurante temático, Dexter é o charmoso bon vivant que conhece o sucesso. A vida dos dois segue seu rumo, estando eles juntos ou separados. A grande sacada do filme é justamente mostrar o mesmo dia sem forçar o fato de eles sempre estarem juntos nesse dia – o que acabaria com qualquer verossimilhança, afinal 18 anos é um bocado de tempo. O que acontece é que, mesmo separados e por vezes sem se falar, eles representavam o que faltava na vida do outro. E a dor do filme reside exatamente nessa falta, que permanece muito mais pungente do que tudo na vida.

500-dias-com-ela-23. (500) dias com ela – Provavelmente o filme mais popular e mais inevitável desta lista, (500) dias com ela divide muito as opiniões, mas é fato que é praticamente impossível passar incólume a ele. O longa é construído de forma que o espectador se identifique com Tom (Joseph Gordon-Levitt) e compartilhe com ele a raiva que ele sente de Summer (Zooey Deschanel). Afinal, ela o abandonou – e o que de pior se pode fazer a uma pessoa, não é mesmo? Porém, ao assistirmos ao filme por uma segunda vez, percebemos que Summer não fez nada de errado. Enquanto uns odeiam Summer, outros odeiam Tom, a verdade é que eles só foram culpados de serem humanos. Nem mais nem menos. Summer não amou Tom e jamais seria feliz com ele. Tom não amou Summer, e sim a ideia que fazia dela. Ao assistirmos pela terceira vez, conseguimos até perceber que aquele pseudoamor não fazia sentido. O problema é que a maioria dos amores não faz. Por isso odiamos ou amamos (500) dias com ela. Queremos que nossos amores façam sentido, que nos deem sentido e tudo, mas a maioria acaba sem estarmos preparados.

2. Brilho eterno de uma mente sem lembranças – Sem a menor dúvida, meu preferido dessa lista de filmes tristes. Saído da cabeça maluca de Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry, o longa conta a história do relacionamento entre Joel (Jim Carrey, fantástico) e Clementine (Kate Winslet, que parece feita para esse papel). Como o fracasso é a tônica dessas histórias, aqui não poderia ser diferente. Contudo, o surrealismo típico do autor leva a narrativa para caminhos diversos em relação às outras. O personagem de Jim Carrey decide fazer um procedimento para apagar todas as memórias que tinha de sua ex-namorada, ao saber que ela havia feito o mesmo ao decidir esquecer-se dele. O detalhe é que durante o procedimento, ele tenta escapar do apagamento dentro de sua mente, levando-nos a perceber que, ao destruir suas memórias, ele destruiria parte de si próprio. Afinal, o que seríamos se apagássemos parte do que somos? Não adianta evitar a dor. Se o fizéssemos, como conheceríamos seu oposto?

Brilho eterno

1. Namorados para sempre (Blue Valentine) – Apesar do título indecente em português (algum gênio achou que seria uma boa ideia dar esse título para atrair os namorados ao cinema), Blue Valentine é a história ideal para rasgar o coração, daquelas que, quando termina, você pensa: “meu deus, que filme horrível”. Porém, não é o filme que é horrível. Ele é excelente, por sinal, com um Ryan Gosling na medida e Michelle Williams em sua melhor atuação. Horrível é a sensação que ele deixa, o gosto desgraçado que não sai da sua boca ao sentir a dor existencialista que é fruto da percepção de que tudo está fadado ao fracasso. Tudo começa com um fim iminente, que nos leva a perguntar se esse “tudo” realmente começou algum dia. É um filme dolorido do começo ao fim. Uma pergunta feita ao longo da história resume bem: “como você pode confiar em seus sentimentos se eles podem desaparecer?”. E a sensação é a de que tudo desaparece. Tudo desaparece. Tudo acaba. E é com esse filme, com essa sensação, que este texto acaba.

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