Manuela na cova dos leões

Na última segunda-feira, 25, o programa Roda Viva, da TV Cultura, recebeu a pré-candidata à presidência do Brasil Manuela D’Ávila como entrevistada. Como frisou Manuela, logo em sua primeira fala, é mulher, feminista, de esquerda e mãe. Foi eleita por duas vezes como Deputada Estadual no estado do Rio Grande do Sul, sendo a mais votada quando concorreu.

Como estamos em ano eleitoral e o motivo da presença dela no programa era exatamente a sua pré-candidatura, já era mais do que esperado que alguns dos entrevistadores tentassem atingir o calcanhar de Manuela. Mas foi bem além disso.

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Espera-se, quando vamos assistir a um programa de entrevistas, que os entrevistadores façam perguntas e o entrevistado as responda. Quando outro pré-candidato, Ciro Gomes, foi ao programa, a fluidez com que as respostas eram ditas à medida que as perguntas eram feitas foi bem limpa, sem muitos ruídos ou adendos. Mas, com Manuela, o que vimos foram entrevistadores que queriam colocar palavras nas respostas da entrevistada, antes mesmo que ela pudesse responder. Era como se tivessem jogado um cordeiro numa jaula de leões.

Além disso, o duelo entre os D’Ávila tem rendido discussões no campo ideológico. Frederico D’Ávila, que é chefe de campanha do principal concorrente por parte da direita, Jair Bolsonaro, usou do famoso sensacionalismo que já é conhecido por essa parcela conservadora, com perguntas esdrúxulas e, chegando a reproduzir absurdos que vemos de forma corriqueira em redes sociais, como os mitos de que não existe uma cultura de estupro no Brasil, até chegou a falar que o Nazismo, comandado por Adolf Hitler, era uma doutrina de esquerda. Seria engraçado, se não fosse trágico.

manuela1Passada já metade do programa, os entrevistadores simplesmente esqueceram de que a convidada era Manuela, pois o foco a partir dali foi unicamente o ex-presidente Lula. Conhecidamente e assumidamente defensora da inocência de Lula, Manuela viu uma enxurrada de perguntas sobre a sua relação com ele, e, a partir de então, o debate correu em torno da sombra do ex-presidente. Ainda assim, ela se manteve firme e tentou dar respostas que, de forma inteligente, não a comprometessem, já que estava ali para falar da sua campanha e não de outrem.

Mesmo bem preparada e com uma postura impecável, não podemos nos cegar e fingir que foi a melhor das entrevistas por parte da entrevistada. Com respostas que, algumas vezes, divagavam sobre o assunto como quem fugisse de uma resposta direta, perdeu a chance de um impacto maior nos espectadores. Mas nada tira da minha cabeça que, se as interrupções não fossem tantas, a fluidez das respostas e das propostas apresentadas ali por Manuela D’Ávila seriam bem mais impactantes e iria além de apenas polêmica.

Ficamos então com essa preocupação matutando em nossas cabeças. Claramente, se compararmos de forma rápida e simples as entrevistas feitas com Manuela e Ciro Gomes, o fato de ser mulher fez com que a intimidação vinda da bancada fosse muito mais evidente, já que, quando um homem foi o alvo das perguntas, as polêmicas e intimidações não aconteceram da mesma forma. E ficamos nos perguntando se essa agressividade será o tom dessa corrida eleitoral e se precisamos nos submeter a momentos assim para decidirmos o melhor candidato. E não podemos deixar passar casos como esse em branco. Não ficaremos calados.

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