Confie na poeta, leitor!

Entre 1950 e 1997, Hilda Hilst escreveu mais de quarenta exemplares inéditos, dentre os quais obras de poesia, prosa ficcional, peças de teatro e crônicas. Foram quase cinco décadas dedicadas à literatura, as últimas três em sistema de extrema disciplina: reclusa na Casa do Sol, sua propriedade afastada do barulho da cidade, Hilst se entregava à leitura e à escrita horas e horas por dia, religiosamente.

Hilda também não se orientava pelo pouco. A fome de descoberta do humano fez dela uma leitora voraz de poesia, filosofia, teologia e ciências. É comum encontrar nas dedicatórias de seus livros ou em entrevistas alguma menção sobre Beckett, Georges Bataille, Teresa D’Ávila, Drummond…

Apesar de sempre ter tido uma boa recepção da crítica, até os anos 90 era difícil achar um livro seu nas prateleiras. Hilda era respeitada, mas não lida. Com sua famosa tetralogia obscena, quis dar um recado bem dado ao mundo: prefiro ser lida como puta do que respeitada muda. A tetralogia é uma das maiores críticas feitas em literatura à máfia editorial, tão clara e límpida que nem mesmo as cem formas diferentes de se nomear as partes íntimas do corpo humano são capazes de desviar o óbvio acerto de contas proposto ali. Obsceno mesmo era o mercado editorial – que tentava a todo custo vender lixo ao leitor preguiçoso que não colocava a mente em risco -, não o sexo, não a escatologia toda desses sinônimos.

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Acho que em algum lugar desse texto, escrevi a palavra “voraz”. É difícil falar sobre Hilda sem utilizar esse termo pelo menos uma vez. Mas, se me permite, gostaria de convencê-lo, leitor, de que voracidade não é sempre violência. É potência. Se caminharmos até seu primeiro livro, Presságio (1950), e lermos com atenção, vamos encontrar poemas líricos, com referências às canções de amigo e pastoris, num tom aparentemente bucólico. Mas a Morte está ali, a rondar e pulsar o fluxo do eu lírico; a morte também tem corpo, está encarnada, a nos sujeitar à vida.

Dizem que uma das coisas que separam os leitores dos textos da Hilda Hilst é sua forma hermética demais, filosófica demais, e uma prosa em que não há enredo definido. Mas se as palavras são únicas, como ficaria a cargo do poeta justamente ignorá-las? Como exigir censura, cesura, melindre de quem procura a única palavra que nos salvará? E, sinceramente, acredito que não encontrará nenhum vocabulário mais complicado do que aquele contido nos clássicos que lemos para a escola, garanto. Por isso, confie na poeta, leitor!

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“Confie na poeta, leitor!”

Sobre filosofia, acho que ninguém precisa ser especialista em Nietzsche para perceber que a pulsão de vida e a nossa fracassada tentativa de botar ordem no caos não andam exatamente de mãos dadas, né? Esse conflito, essa fricção, é Ser. Talvez essa sensação só ainda não tenha nome para você, o que é mais uma razão para deixar os poetas operarem com liberdade. Portanto, confie na poeta, leitor!

Já a coisa do enredo é do que mais acho graça. Uma literatura que nos joga às andanças com o impulso de vida poderia ter mapa? Seria, no mínimo, desonesto, e desonestidade é tudo o que você não vai encontrar na literatura da Hilst.

O que é realmente necessário para ler Hilda Hilst é se permitir ler Hilda Hilst. Não ouvir falar. Ler. É só ali, naquele fluxo descontínuo, que vai entender sobre aquilo que lhe falei, voracidade e potência: tão suas, que nem vai se lembrar da #leiahilda. Então, confie na poeta, leitor!

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Hilda Hilst: Autora homenageada da Flip 2018.

Aproveite o burburinho! A Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 25 e 29 de julho de 2018, vai homenageá-la. O evento terá diversas mesas dedicadas à leitura de sua obra ou inspiradas em seu universo criativo. Sua obra completa (47 anos de labuta) também está sendo reeditada, e hoje conseguimos encontrar tudo com certa facilidade: a Companhia das Letras lançou um compilado com toda a poesia de Hilda (Da poesia, 2017) e um box reunindo toda sua obra em prosa (Da prosa, 2018); as peças teatrais ficaram a cargo da L&PM, em dois volumes (Teatro Completo 1 e 2, 2018); e as crônicas foram reeditadas pela Nova Fronteira (132 Crônicas: Cascos & Carícias e Outros Escritos, 2018).

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