Panorâmica insana. (Insana?)

Provavelmente você nem vai ler esse texto. Talvez tenha aberto por engano e vai fechar assim que entender do que ele trata. Porque é assim que funciona, não é? Nesse emaranhado insano de informações rápidas que a internet nos oferece, nesse mundo da maior velocidade possível, nesse momento em que o vídeo substituiu o texto – e em que um vídeo de gatinho é mais interessante do que algo que faça pensar −, esse texto parece inútil. Sem contar que todas as vezes que escrevemos sobre poesia e arte, as pessoas parecem ter medo e saem correndo. Afinal, por que falar de arte nesse mundo em que as pessoas cogitam votar em candidatos machistas, misóginos, homofóbicos e racistas?

Mas se você for um dos onze amigos que vai ler esse texto até o fim, parabéns! Se não fizer diferença pra mais ninguém, fará pra gente e espero que pra você. Espero que faça tanta diferença quanto fez pra gente assistir a Pi – Panorâmica insana, de Bia Lessa. Apesar de concebida e dirigida por ela, a peça é uma obra multifocal, em que se uniram os trabalhos de três roteiristas (Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant’anna) para que se criasse a multiplicidade de personagens encarnados por apenas quatro atores: Leandra Leal, Cláudia Abreu, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo.

A questão é justamente essa: há quatro atores, mas não quatro personagens. Há em torno de 150. Mais de 8 mil peças de roupas espalhadas pelo chão e a troca insistente de roupas pelos atores. Trocando de roupas, troca-se de personagem e de identidade. Num espaço cênico de 400 m², tudo é discutido e todo tipo de ser humano está presente no palco, vivido mas não necessariamente criado por aqueles quatro atores.

Uma das citações do roteiro é de Paul Auster, que organizou o livro Achei que meu pai fosse Deus. São histórias reais, escritas por pessoas comuns de diversos pontos dos Estados Unidos e reunidas pelo autor. Aqui, contam-se as histórias de pessoas de diversas nacionalidades, de todas as classes sociais. Ricos, pobres, grandes proprietários e favelados, membros da tal família tradicional, loucos e putas, bêbados e fanáticos religiosos. Clowns, párias, desajustados. Pessoas que fingem ser o que acham que elas devam ser.

Naquele palco gigantesco, essa é a grande panorâmica que dá título à montagem de Bia Lessa. Essa pluralidade é a nossa panorâmica – em que nós todos somos representados. Nossa sociedade é isso, independente de termos nossos preconceitos ou não. Tudo o que nos foi apresentado existe e somos nós. Como disse Augusto Boal, “no teatro, tudo é verdade. Até a mentira”. Chega o momento em que pouco importa se o que está representado no palco foi a criação de uma realidade ou a imitação do que já existe. Tudo se funde. Tudo se torna verdade e o espectador não pode se sentir como mero observador.

Jamais podemos ser meros observadores do que a arte nos proporciona. Isso subtrai toda a função de uma obra de arte existir. Como produtores, precisamos incomodar. Como espectadores, precisamos nos sentir incomodados. Precisamos rir e chorar com realidades que não são nossas justamente porque elas passam a ser nossas. Ou talvez realmente sejam e não saibamos. Sair de uma peça de teatro nos perguntando “o que é ser feliz e por que é tão difícil?” é receber um choque absolutamente necessário pra resetar vários conceitos.

Então é isso: somos todos mulheres e homens de família; somos todos putas e bêbados; todos queremos ver a lua sumir dos céus; todos machucamos o coração de alguém; todos fomos machucados; todos achamos que o sexo ou o celibato seriam a solução; todos somos assassinos e suicidas; estivemos todos naquele palco. Somos uma força da natureza. Somos a nulidade total. Somos todos capazes de pensar em tudo isso ao fim de uma peça. Estamos todos nesse texto.

Então é isso. Se você chegou até aqui, eu te pergunto: quem é você? Está disposto a sair do seu mundo confortável e me dizer quem é? Vai permanecer parado, inerte, adaptado a sua vida, seja ela miserável ou luxuosa? Quem é você? Quem é cada um de vocês? Quem éramos cada um de nós naquele teatro? Quais são as probabilidades de a gente ser feliz?

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