Ressaca

Reflexões literárias pós-Flip

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos

Hilda Hilst

Depois de cinco dias de Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), a sensação é exatamente essa aí do título: ressaca. Cinco dias de eventos, mesas, debates, tudo voltado à literatura e talvez mais do que isso: à palavra. No fim das contas, acho que volto de lá com mais perguntas e algumas conclusões.

Uma coisa a se pensar é que a gente vive num mundo chato pra caralho. O espírito libertário de Hilda Hilst, autora homenageada deste ano e de quem já falamos aqui, permeou o tema de várias mesas, e fiquei mesmo pensando no que ela acharia desse mundo em que tudo vem se tornando tabu novamente. Fernanda Torres, ao falar sobre “Ficção X Não ficção”, na Casa de Não Ficção Época & Vogue, levantou a questão de estarmos vivendo a volta de tempos conservadores – o que, a meu ver, é assustador. É muito curioso, pois, assim como Fernanda, todos nós podemos perceber uma ascensão absurda de um conservadorismo reacionário e autoritário que vai muito além do politicamente correto e acende novamente as sirenes de uma patrulha ideológica constante sobre o Brasil, fazendo, inclusive, com que artistas se sintam limitados sobre aquilo que podem criar.

Pensando nesse conservadorismo todo, transcrevo aqui um trecho de A obscena senhora D, escrito por Hilda Hilst em 1982 e lido na mesa de abertura da Flip por Fernanda Montenegro:

então escuta, aqui na vila me perguntam por você todos os dias, eles me veem trazer o leite, a carne, as flores que eu te trago, querem saber o porquê das janelas fechadas, tento explicar que a Senhora D é um pouco complicada, tenta, Hillé, algumas vezes lhes dizer alguma palavra, você está me ouvindo? ando cheio dos sussurros, das portas entreabertas quando passo pela rua, ando cheio, está me ouvindo? te amo, Hillé, está escutando?

sim

olhe, esse teu fechado tem muito a ver com o corpo, as pessoas precisam foder, ouviu Hillé? te amo, ouviu? antes de você escolher esse maldito vão da escada, nós fodíamos, não fodíamos Senhora D?

Pois é, gente. Ela escreveu isso há mais de trinta anos e hoje imagino que seria impraticável. Cristóvão Tezza, em seu artigo “A ética da ficção”, afirma que “a função de escrever é revelar, e revelar pressupõe uma realidade prévia, oculta, como se ainda inalterada por mãos humanas, pulsando no escuro”. O que anda acontecendo é que certas realidades não são mais aceitas, tendendo a permanecer no escuro, onde ninguém as veja e de preferência sem pulsar. A vida existe e se revela, mas o conservadorismo insiste em julgar qualquer ato de liberdade como “pensamento de esquerda” (seja lá o que isso queira dizer) e instituir uma censura já não tão velada assim, mas apenas ainda não estatizada.

Nesse sentido, chega a ser refrescante ouvir Paulo Lins, autor de Cidade de Deus entre diversas outras obras, falar, na Casa Paratodxs sobre seu processo de composição em meio a doses de bebida, amigos, samba e mesa de bar. Ou Ruy Castro, na Casa Folha, falando de um Rio de Janeiro de outros tempos, quando tudo tinha mais graça e liberdade.

Mas olha só, não estou tentando ser nostálgico nem nada disso. Não vou escrever aqui que gostaria de ter vivido em outros tempos ou coisa que o valha. Meu tempo é este. Nosso tempo é este. Acredito que boa parte de quem me lê aqui provavelmente faça arte de alguma forma também e já deva ter sentido esse incômodo do qual estou falando. Então, crianças, cabe a nós fazer alguma coisa – que seja simplesmente não nos calar.

Só um outro exemplo pra vocês entenderem mais um pouco do que estou falando. Em 1990, Hilda Hilst publicou uma de suas obras mais controversas: O caderno rosa de Lori Lamby. Em 1999, a obra foi transformada em um monólogo para teatro e a atriz Iara Jamra deu voz à protagonista – uma menina de oito anos. Esse ano, como parte de um projeto da Biblioteca Mário de Andrade, foi feita nova montagem da peça, que, inclusive, foi apresentada na Casa dos Desejos, na Flip. Na mesa de encerramento a atriz disse que “encenar ‘O caderno rosa de Lori Lamby’ em 1999 foi menos chocante que em 2018”. Se isso não é sinal dos tempos, eu não sei o que é.

Enquanto isso a gente segue aqui – escrevendo, trazendo ideias e fazendo o que realmente fizer sentido para nós. E o que faz sentido pra você?

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