“Somos o que nos trouxe até aqui”

Desde que criamos a revista, o menores atos é a banda que mais aparece por aqui: já teve cobertura de show, crítica do disco, além de “amanhã” e “Sobre cafés e você” terem aparecido em duas das nossas listas.  Portanto, não deve ser por acaso que a banda surge pela quinta vez, agora para falarmos sobre o show de lançamento do disco lapso, em São Paulo.

Impossível seria esse texto não existir depois de um show daqueles. Além de ser o primeiro show da banda em São Paulo depois do lançamento de lapso, foi a primeira vez que fui ao The House, casa que começou a funcionar depois do fechamento do clássico Hangar 110. Não dá pra negar a sensação de nostalgia recente ao entrar no lugar em que funcionou por 19 anos o maior templo do underground da cidade. Bom saber que o lugar vai continuar recebendo shows, mas ainda assim é estranho saber que não é mais o Hangar.

O que importa é que estávamos lá, naquele clima frio paulistano, completamente apropriado para receber o som dos cariocas do menores atos. Curioso como a banda combina com São Paulo. Sempre que ouço os versos “Não suporto mais o cheiro desse apartamento / Odeio o sol da tarde”, de “Karate”, não consigo imaginar a cena em outro lugar, mesmo com o típico sotaque carioca do Cyro.

Deixando as divagações de lado, vamos ao show. A abertura ficou por conta do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, quarteto instrumental de post-rock, que está prestes a lançar seu primeiro álbum. A banda é muito competente, me lembrando Sonic Youth em alguns momentos. Apesar disso, e sendo completamente sincero e subjetivo, não é o tipo de som que me agrade. Talvez seja uma falha da minha parte, mas não consigo me envolver com esse tipo de som, uma vez que dou uma importância tremenda às letras, que são parte essencial para eu me envolver com as músicas que ouço. Mas, claro, isso é muito pessoal e de forma alguma quero tirar o mérito da banda, que aqueceu e agradou o público.

IMG_20180804_231454629Estávamos, então, todos prontos para receber o menores atos. A banda iniciou o show com as duas primeiras faixas do álbum recém-lançado, “Lapso” e “No espelho” para logo depois entrar nas faixas de seu primeiro disco, Animalia. O que fica nítido é que não importa se eles já subiram ao palco com o público ganho: o trio sempre dá o melhor de si, e ainda mais podendo preparar um set especial para São Paulo, mais longo do que seria se fosse um festival (lembrando que eles voltam à cidade pra tocar no Oxigênio Festival, no dia 8 de setembro). Com essa vantagem, tocaram todas as músicas de lapso e apenas três do Animalia ficaram de fora. Da coletânea Flecha Discos Vol. 1, tocaram apenas “Pressa” – e foi o que mais me doeu, porque queria muito ouvir “Mar aberto”. Mas a gente entende, e uso aqui a mesma frase que usei no meu texto sobre o show do Radiohead, com uma pequena alteração: Faltaram [algumas] músicas. E não faltou nada.

É impressionante como o som e as letras da banda conseguem nos tocar, traduzindo diversos sentimentos que temos no decorrer da vida e que às vezes não conseguimos entender. Como diz a letra de “Lapso”: “Tem coisas que o corpo sente e o olho não vê”. É bem isso. Existe uma força naquelas canções que parecem extrair o que há de pior e melhor em nós. Aquelas coisas que guardamos bem no fundo, dentro de nós, e que vez ou outra precisam ser expurgadas, por mais que seja difícil – talvez porque mais difícil ainda seja fugir.

Acredito que esse seja o grande poder da banda – e de boa parte das bandas de que eu gosto, além de ser justamente a razão pela qual as letras são tão importantes pra mim. Porém, apesar dessa importância, a força da canção não é deixada pra trás. Ao ouvi-las, a sensação de que o som flui por nosso corpo é imediata – e é isso que torna tudo mais bonito, afinal, “somos o que nos trouxe até aqui”. Assim, fica muito mais difícil dizer qual foi o melhor momento do show, porque ele todo forma uma unidade que cria uma experiência única.

Tudo bem que show do menores atos é pra chorar, que as músicas são sensíveis, com letras pesadas e tudo mais, mas triste mesmo é quem não conhece essa banda e não sabe o que é soltar a voz no refrão de músicas como “Amanhã”, “O que te trouxe até aqui”, “Passional” e tantas outras. E mais do que soltar a voz: sentir. Isso se torna ainda mais intenso quando percebemos que as vozes se tornam uma, como na já citada “Sobre cafés e você”, numa versão que ficou fantástica ao vivo.

O fim da noite, com a galera subindo ao palco ao som de “Sereno”, que contou com a participação do Victor, do Bullet Bane, foi um show à parte, que efetivamente terminaria com a delicadeza e com a explosão de “Contramão”, faixa que encerra também o disco. E a conclusão disso tudo é que estávamos diante do que de melhor se faz no rock brasileiro hoje e que, justamente por isso, merece ser conhecido por qualquer um que goste de boa música – e que goste de se emocionar com ela.IMG_20180804_230835677

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